• 17 MAR 20
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    COVID-19: Como abordar o tema com as crianças? – Dr. Tiago Ribeiro

    No dia 2 de março de 2020 foi anunciado em Portugal o primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus – COVID-19. Desde então, têm-se multiplicado não só os casos suspeitos e de infeção confirmada, como as notícias e a divulgação de medidas para a prevenção da disseminação do vírus.

    De entre todas as medidas de contenção da pandemia, têm sido discutidas, sobretudo, quais os procedimentos a adotar face às crianças, nomeadamente quanto às escolas: encerrar ou não, decisão confirmada para 16 de março. Este facto relaciona-se, sobretudo, com o facto de as crianças serem agentes favoráveis à propagação do vírus, pelo seu padrão de interação, tipicamente mais próximo e físico.

    Assim, é importante saber de que forma abordar o tema e explicar procedimentos, junto dos mais novos, não só como medida de consciencialização e prevenção da disseminação do vírus, mas também evitar o alarmismo desproporcional.

    1. Aborde naturalmente o tema, evitando informação repetitiva que fomente o medo e o pânico. Com a constante atualização da informação pelos meios de comunicação, é também importante que esse não seja o único assunto disponível perto das crianças;
    2. Explique, eventualmente com recuso a imagens ou objetos, a função e utilidade das máscaras, luvas, gel desinfetante, distância de segurança ou formas alternativas de cumprimento;
    3. Uma forma de tranquilizar a criança é abordar de forma positiva e descontraída os procedimentos a tomar. Ensinar a criança a fazer uma correta lavagem das mãos, ensinando-lhe, por exemplo, uma música do seu agrado com duração aproximada de 20 segundos, pode introduzir um carácter de descontração no procedimento. O mesmo se poderá aplicar aos espirros ou tosse, e lembre-se que estas medidas continuarão a ser úteis, para além do COVID-19;
    4. Evite abordagens que incentivem ao medo. Expressões como “vais ficar doente”, “assim podes ter de ir para hospital”, “o vírus é um bicho que anda lá fora”, devem ser evitadas sob risco de aumentar os níveis de ansiedade e medo associado à doença;
    5. Adeque a informação ao nível de desenvolvimento da criança. Não é necessário transmitir demasiada informação, ou informação desajustada à idade da criança. Apesar de ser desejável que transmita honestidade e clareza, lembre-se que alguns dos conceitos associados ao coronavírus são complexos e abstratos, para as crianças mais novas;
    6. Dê enfase a casos de sucesso e de cura. Procure não centrar o diálogo apenas nos riscos e cuidados, mas também nos casos com conotação positiva, como a cura, respeito pelas normas e indicações de saúde pública e por comportamentos ou histórias de entreajuda;
    7. Evite a estigmatização. Explique à criança que não há uma associação à raça, etnia, ou nacionalidade e que não há um maior risco de doença associado a essas características;
    8. Mostre-se disponível para repetir informação. Para algumas crianças a tranquilidade aumenta com a repetição. Mostre-se disponível para voltar a conversar e a explicar, com calma, ou com exemplos novos e mais claros, toda a informação necessária para tranquilizar a criança;
    9. Procure não transmitir a sua ansiedade. Caso se sinta assustado ou ansioso em relação a alguma notícia, comportamento de risco, ou suspeita de infeção, procure não transmitir o medo à criança. Será vantajoso dialogar noutra altura ou delegar essa conversa a alguém mais tranquilo;
    10. Evite situações onde a criança possa ser exposta a comportamentos coletivos de ansiedade ou pânico. Supermercados, farmácias, ou outros locais onde a procura e consequente agitação possa aumentar, devem ser evitados durante o período de maior preocupação;
    11. Mantenha, o mais possível, as rotinas. Para grande parte das crianças a rotina transmite segurança e manter o máximo de rotinas traduz-se em previsibilidade, segurança e tranquilidade. Em caso de isolamento ou quarentena, tente ao máximo manter os dias estruturados com horários regulares, por exemplo, para os trabalhos de casa, para as refeições e para dormir;
    12. Utilize os recursos digitais. Numa altura em a tecnologia faz parte do dia-a-dia da grande maioria das crianças, utilize-a a favor da manutenção das rotinas. Lembre-se que é possível que a criança faça algumas das atividades diárias à distância, como consultas, aulas, ou conversas com os colegas e amigos;
    13. Considere o significado de comportamentos atípicos. Algumas crianças poderão apresentar comportamentos atípicos e desajustados, medos, birras, desatenção ou agitação motora, como expressão do seu nível de preocupação, ansiedade ou desregulação dos hábitos diários;
    14. Lembre-se que pode sempre contar com o apoio técnico especializado. Se, por exemplo, para uma criança com Perturbação do Espetro do Autismo a dificuldade poderá ser ajustar a proximidade social ou tolerar o uso de uma máscara, para uma criança com Perturbação Obsessivo-Compulsiva, o desafio poderá ser não reforçar crenças ou práticas exageradas e disfuncionais associadas à limpeza ou desinfeção. Se identificar um agravamento das dificuldades de regulação emocional ou comportamental, procure ajuda terapêutica especializada.

     

    Artigo desenvolvido por:

    Tiago Ribeiro, Psicólogo Clínico

    PIN – Centro de Desenvolvimento