• 10 JAN 23
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    «Estrelas & Ouriços – Artigo opinião » “Brinquedos para menino, para menina… ou para criança?” Dra. Mariana Reis Sarmento e Dra. Ana Beato, Psicólogas Clínicas no PIN – Partners in Neuroscience.

    Será que ainda faz sentido falar em brinquedos de menina e de menino?

    Ao abordar esta questão teremos que começar por explicitar o que é a expressão de papéis de género. Este termo é relativo a manifestações de género que podem ser observadas, expressas através de diferentes componentes, tais como a roupa e acessórios, cortes de cabelo, comportamento, etc.

    Deste modo, a escolha de brinquedos para meninas ou para meninos, deriva também da expressão estereotipada de cada género. No entanto, os brinquedos em si não têm género. Não existe nenhuma condicionante física ou psicológica para uma pista de carros não ser utilizada por uma menina, ou uma boneca não ser escolhida por um menino. É normativa a exploração das crianças por diferentes brinquedos, brincadeiras e atividades, independentemente do que socialmente é atribuído a cada género.

    Na verdade, apesar da expressão de cada género parecer algo fixo na sociedade, podemos observar exemplos de como isto não é bem assim. Num passado recente, as mulheres apenas usavam saias ou vestidos, não sendo socialmente aceite o uso de calças pelas mesmas. No entanto, neste momento, as calças são uma peça de vestuário tão comum entre homens como entre mulheres.

    Com efeito, a linguagem estabelecida, que revela a visão binária entre “feminino” e “masculino” nos brinquedos infantis, também terá que ver com a rotulação que é útil às empresas dos mesmos, para o seu público-alvo. Assim, apesar destas classificações, nenhum brinquedo tem, de facto, um género.

    Quais os impactos futuros de condicionar as crianças a um tipo específico de brinquedo?

    Os brinquedos mais atribuídos ao sexo feminino são os “bebés”, as bonecas, os utensílios de limpeza e outras atividades domésticas. No entanto, os brinquedos comumente classificados como masculinos são relativos a desportos, velocidade e batalhas.

    Assim, podemos refletir sobre a possível contribuição dos diferentes brinquedos para o desenvolvimento das crianças. Será que os primeiros ensinam a cuidar e a desenvolver competências sociais e de autonomia? E será que os segundos desenvolvem a coragem e competências motoras e de defesa-ataque? Não seria vantajoso para a criança, independentemente do seu género, experienciar as várias brincadeiras de modo que pudesse desenvolver várias competências úteis?

    Um exemplo, que poderá ser esclarecedor nesta questão, é o dos brinquedos relacionados com as diferentes ciências. Estudos demonstram que estes são percecionados como brinquedos masculinos, portanto, também comprados para serem oferecidos a meninos. Mais uma vez, podemos refletir sobre o eventual impacto que poderá ter a convivência com este tipo de atividades desde a infância e posteriores preferências nas disciplinas escolares, cursos e profissões.

    Finalmente, quando os adultos proíbem as crianças de optarem por brinquedos que desejam, podem  levar a que estas sintam que não é seguro partilhar a sua identidade, na integra, com a sua família.

    Há fatores biológicos envolvidos na maneira como as crianças escolhem os seus brinquedos? Ou são apenas influenciadas por construções sociais?

    Alguns autores discutem a possível influência da testosterona no desenvolvimento cerebral das crianças. Assim, consideram a possibilidade de níveis superiores de testosterona estarem relacionados com competências superiores ao nível visuoespacial e competências inferiores quanto à compreensão verbal, emocional e social. Deste modo, também é considerado que isto poderá influenciar os interesses das crianças.

    No entanto, as crianças aprendem quais são as expectativas quanto à expressão de género, fundamentalmente, de forma indireta. Por exemplo, através da observação do comportamento dos pais. Na verdade, entre os dois e os três anos, os bebés já demonstram perceber estas expectativas, visto que conseguem categorizar a si próprios e às restantes pessoas entre “homens” e “mulheres” consoante a sua roupa e cabelo. Assim, também é expectável que, a partir destas idades, as crianças optem pelos seus brinquedos e jogos tendo em conta o que consideram expectável para o género que lhes foi atribuído à nascença.

    É um receio comum entre os pais que a escolha de brinquedos seja indicadora da identidade de género ou orientação sexual da criança. No entanto, esta opção não afeta ou revela algo sobre a sexualidade da criança.

    Que aspetos é que os pais devem ter em atenção ao selecionar brinquedos para os seus filhos?

    Os pais podem ter em conta a importância de deixar os seus filhos brincar livremente! Deste modo, a escolha de brinquedos pode ser variada, tendo o foco nos gostos da criança e as competências que podem desenvolver. Meninas e meninos, ambos beneficiariam de brinquedos que incentivem ao desporto, como uma bola de futebol, ou que aumentem os interesses por tarefas domésticas que lhes serão indispensáveis no futuro, tal como uma “cozinha”. Transmitir às crianças que certos jogos são apenas para meninos ou meninas cria conceitos rígidos quanto aos géneros, que podem levá-las a pensar que aquilo de que gostam é mau ou errado.

    Na verdade, a melhor opção pode passar por deixar a criança escolher. Deixá-la optar pelos brinquedos que quer, para além de permitir que esta explore o seu mundo e se desenvolva, pode promover a comunicação e a relação pais-filho/a.

    De que modo é que a indústria dos brinquedos se tem esforçado para ser mais inclusiva?

    Apesar de a maioria da indústria ainda rotular os brinquedos como sendo de menina ou de menino, algumas empresas e lojas procuram que não exista esta divisão.

    Vemos alguns pequenos passos, tais como os dados pela loja Toys”R”Us, que retirou o filtro “menino” e “menina” dos seus websites. Outras lojas têm uma secção sem classificação quanto ao género (apesar de terem secções para “rapazes” e “raparigas”).

    A TOP-TOY e o Lidl criaram os seus catálogos com imagens de crianças, de géneros diferentes, a divertirem-se com os mesmos brinquedos. Podemos observar meninos a passar a ferro e meninas a brincarem com carrinhos e ferramentas, o que transmite a mensagem do folheto do Lidl “Para criança”.

    A empresa dinamarquesa LEGO também tem realizado esforços para se tornar uma marca inclusiva. Nas redes sociais circulou uma carta, a qual se acredita ter sido incluída nas caixas LEGO em 1974, que demonstra que há mais de 40 anos que esta marca se esforça por ver um brinquedo sem filtros quanto aos géneros.

    “To parents

    The urge to create is equally strong in all children. Boys and girls.

    It’s imagination that counts. Not skill. You build whatever comes into your head, the way you want it. A bed or a truck. A doll’s house or a spaceship.

    A lot of boys like dolls houses. They’re more human than spaceships. A lot of girls prefer spaceships. They’re more exciting than dolls houses.

    The most important thing is to put the right material in their hands and let them create whatever appeals to them”.

    Mariana Reis Sarmento,

    Psicóloga Clínica; Consulta Sexualidade PIN

    Ana Beato,

    Psicóloga Clínica; Coordenadora Consulta Sexualidade PIN