• 18 NOV 20
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    «Estrelas & Ouriços – Artigo opinião » “De volta a casa… e à Pandemia dentro de casa” – Dra. Maria João & Dra. Teresa Carvalho

    Mais tarde ou mais cedo, um amigo da escola do filho mais novo ficou infetado e todos os alunos da sua turma foram para casa, e volta a escola à distância, o teletrabalho e todos os desafios que acompanham a quarentena forçada. Já sabemos o que aí vem, mas mesmo assim continuamos sem saber qual a melhor forma de gerir os desafios da casa cheia, principalmente quando acontecem todos ao mesmo tempo.

    Não é possível indicar estratégias milagrosas, panaceias que resolverão todos os problemas de uma vez por todas e que “resultam sempre”. Parte de nós, adultos e educadores, ter bem assentes as nossas necessidades, limites, e prioridades e, com base nisso, responder às necessidades, limites e prioridades dos nossos filhos.

    As estratégias certas vêm sempre de um lugar de compreensão e respeito mútuo, de calma e sensatez para a resolução dos problemas, e de alguma aceitação de que há momentos mais difíceis em que não é possível fazer tudo aquilo que o nosso julgamento nos diz ser o que devíamos fazer.

    Assim, é essencial ter uma visão realística da nossa situação atual, não esperando que seja fácil e natural a alteração das rotinas para todos e que não surjam desafios quando viramos o mundo dos nossos filhos do avesso. É natural que os desafios surjam, o importante é saber como os gerir. Para isso, deixamos alguns pontos de partida.

    É assim tão importante ter uma rotina estruturada?

    Este pode ser o ponto de partida mais importante. Uma rotina estruturada (isto é, com horários para a realização das diferentes tarefas e atividades ao longo do dia), permite antecipar como o dia vai ser, criando uma expectativa realística do que vai acontecer quer para a criança quer para os pais.

    Esta rotina deve ser o mais semelhante possível à rotina que tinham em condições normais, fazendo os ajustes necessários à organização familiar. Deve incluir tanto as atividades letivas obrigatórias (e.g., assistir a aulas online, realização de trabalhos escolares) como atividades lúdicas que são realizadas preferencialmente no final das atividades obrigatórias.

    A rotina deve ser transmitida de forma clara à criança (por exemplo, colocando o horário em papel num local visível da casa), assim como aquilo que deve esperar dos pais a cada momento (quando estão a trabalhar, e quando não estão a trabalhar). Muitas vezes acreditamos que os nossos filhos têm a obrigação de perceber o que podem fazer quando veem que estamos a trabalhar, contudo o que eles veem é a mãe ou o pai em casa, perto deles, em frente ao computador. Se não lhes comunicamos de forma aberta os nossos limites e necessidades, como devemos esperar que eles os consigam adivinhar?

    É, pois, muito importante ter uma comunicação aberta com os seus filhos, explicando-lhes claramente como devem agir quando veem os pais a trabalhar (ou seja, deve ser explicado que deverão permanecer em silêncio nos horários de trabalho, quais as situações estritamente necessárias em que poderão interromper e de que forma o deverão fazer, combinando um sinal não-verbal com eles para quando precisarem de interromper os pais).

    Como gerir o tempo livre das crianças?

    Outro dos grandes desafios é como gerir o tempo livre das crianças. Apesar de ser livre, seria importante seguir algumas ideias. Em primeiro lugar, o planeamento, ou seja, é importante que as crianças saibam quando irão ter esses momentos e que todas as atividades tenham um momento marcado de início e de fim. Estas premissas contribuirão para manter as crianças organizadas no tempo e para dar uma sensação de previsibilidade e segurança.

    Durante o fim-de-semana, estabeleça com os seus filhos um plano semanal, permitindo que as crianças antecipem e prevejam como será a ocupação do seu tempo livre, com e sem os pais.

    Para os mais novos, pode incluir atividades como ver um filme, uma vez que tem um tempo estabelecido e evita que estejam sempre a mudar de canal e a solicitar a ajuda dos pais. Poderão também ter uma área dos legos ou outros jogos que poderão explorar sozinhos ou com o apoio dos pais.

    Outra ideia seria verem e organizarem os álbuns de fotografias da família. Esta atividade talvez necessite de algum apoio dos pais e poderão aproveitar para contar histórias engraçadas sobre a família. Também poderá ser interessante integrá-los em algumas rotinas domésticas como, por exemplo, ajudar a pôr a mesa ou tirar a roupa da máquina de lavar. Outros dos momentos interessantes e que poderão ser securizantes para os mais novos são: o “Brincar ao faz de conta”, ouvir música, cantar e dançar.

    Com os mais velhos, talvez seja importante um momento de “reunião familiar” para pensar e organizar quais as atividades que poderão fazer fora do horário escolar, com atividades estabelecidas pelos pais e outras propostas pelas crianças ou jovens.

    Os pais poderão estabelecer atividades relacionadas com as rotinas domésticas, responsabilizando as crianças ou jovens por algumas delas, como fazer a cama ou pôr a mesa. Também poderão pensar em momentos criativos, como trazer temas para serem pensados e refletidos pela família (podem ser os pais a propor ou os filhos).

    A família poderá ter também projetos que foram adiados e que podem realizar nestes momentos, como organizar materiais, selecionar livros ou arrumar o quarto dos brinquedos. Entre os momentos propostos pelas crianças ou jovens poderá ser englobado o tempo de ecrã e o tempo de conversa com os amigos.

    Todas as propostas que surgirem deverão ser depois organizadas num horário, com tempo de duração estruturado. Por fim e não menos importante, passear ao ar livre quando possível e respeitando as regras de segurança, deverá fazer parte da nossa lista de programas para o tempo livre.

    Devo ser mais criativo?

    Sabemos que a criatividade se expressa na maneira como resolvemos os problemas, que promove a saúde mental em diferentes ambientes e situações, e por isso tem neste momento um papel importantíssimo. Sobre a criatividade gostaríamos de propor outras atividades que tenham por base o desenvolvimento emocional e que poderão ajudar os seus filhos e a sua família não só na resolução de problemas como a passarem momentos diferentes, agradáveis e que contribuam para o aumento do bem-estar familiar.

    X Praticar 5 minutos de relaxamento com os seus filhos, sem ecrãs. Promover estes momentos permitirá não só desligar-se de todos os estímulos a que estamos sujeitos, mas também proporcionar à criança um momento para parar e poder apenas sentir-se e conectar-se com aquilo que está a pensar ou a sentir, possibilitando a regulação emocional.

    X Durante o jantar, pedir a cada elemento da família que diga algo que o deixou feliz e triste durante esse dia.

    X Interpretar uma emoção (a expressão facial, o tom de voz, o tipo de mensagem verbal e não verbal) e os outros elementos tentam adivinhar qual é. Depois poderão inventar uma história para acompanhar cada sentimento, ou dizer em que situações cada um se sente daquela forma.

    X Um dos elementos da família conta uma história onde surge um problema e cada elemento partilha a forma como o resolvia e como terminava a história.

    Apesar de compreendermos a necessidade instintiva dos pais em ocupar todos os tempos livres dos filhos, já que isso permite a previsibilidade, a organização e a segurança para as crianças e para os próprios pais, poderá ser importante permitir-se a aceitar que o seu filho pode também ter um momento livre, sem qualquer atividade pré-definida. Isto poderá ser potenciador da criatividade do seu filho, ao ser confrontado com a possibilidade de poder escolher como se vai entreter naquele momento. Ser criativo não é arriscar fazer diferente?

    Como gerir o acumular de tarefas por fazer e as emoções à flor da pele?

    Nunca se falou tanto na importância da “resiliência”, e nunca esperámos que esta pudesse estar tanto nas tarefas do dia-a-dia. A capacidade que demonstramos em nos adaptar às alterações que nos são impostas pode realmente colocar-nos à prova, trazendo as emoções à flor da pele (numa manifestação de negação ou evitamento do que está a acontecer) ou potenciar aprendizagens que nos trarão um sentido de autoeficácia e de resiliência.

    A diferença entre a primeira experiência e a segunda está nas expectativas que colocamos em nós próprios. Se esperamos que ao fazer quarentena obrigatória, o trabalho vai estar sempre em dia, as refeições serão servidas à hora na mesa, a casa estará limpa e organizada, e os filhos vão ter os trabalhos da escola em dia, o banho tomado e vão seguir todas as instruções que nós lhes dissermos, estaremos a condenar a nossa sentença.

    Para potenciar a nossa capacidade de resiliência, é importante ajustar as nossas expectativas de forma realística, aceitando os limites da condição humana, o que significa, aceitar que não somos perfeitos e que não estará tudo feito no tempo desejado. Implica compreender que há momentos em que as exigências são mais que os recursos que temos para lhes responder, e que isto automaticamente gera uma resposta de stress. E tudo isto é normal.

    Cabe-nos a nós perceber e aceitar esta experiência de stress, e definir o que queremos fazer com ela. Defina prioridades, e não deixe de fora o seu bem-estar e o bem-estar de todos em casa nessas prioridades.

    O mundo pode virar do avesso, mas continua a girar e os seus filhos a crescer, mesmo que num mundo ao contrário. Todas estas alterações e adaptações vão criar possibilidades de aprendizagens, entre outras, na autonomia, autorregulação e capacidade de resolução de problemas dos seus filhos. Potencie estas aprendizagens dos seus filhos, não negligencie o tempo de qualidade com eles e assista em tempo real ao seu crescimento.

    Autor:

    Maria João Gouveia e Teresa Carvalho, Psicólogas Clínicas

    Fonte: Estrelas e Ouriços