• 09 MAI 22
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    «Estrelas & Ouriços – Artigo opinião » “O modo como falamos tem consequências na forma como escrevemos?” de Tânia Capaz, Professora de Educação Especial e Jaqueline Carmona, Terapeuta da Fala e Linguista.

    A comunicação é o que permite interação: trocar ideias, conversar…, mas também ser criativo: inventar histórias… pensar e organizarmo-nos: “não me posso esquecer que preciso comprar: pão, leite, o jornal…”.

    Por vezes, a mensagem produzida verbalmente (fala) tem diferentes tipos de incorreções, sendo as mais comuns as fonéticas, as fonológicas e as sintáticas. Se tal acontecer, erros similares vão aparecer na escrita. Daí ser frequente ouvirmos dizer “escreves como falas!”.

    A escrita não é uma competência “fácil” de ser aprendida, uma vez que é ainda mais exigente que a oralidade. Surgem, ao escrever, inúmeras dúvidas pois alguns sons de fala (fones) são, a nível auditivo, muito parecidos (por ex. “ch” e “ss” nas palavras acha / assa). Também se verifica que, por um lado, o mesmo som de fala é redigido com várias letras (grafemas) ou ‘combinar’ de letras diferentes (por ex.: “s” – som, “ç” – maçã, “ss” – massa, “ce” – cedo, “ci” – cidade e “x” – máximo), mas, por outro lado, outras são verbalizadas com o mesmo som, mas escritas de forma diferente consoante o seu significado e contexto, por ex.: “Era uma vez…”/”Eu ofereci uma hera à minha avó.”. Por fim, a oralidade aceita construções sintáticas como por exemplo: “Vou à da Maria”, mas se esta frase fosse escrita qualquer adulto corrigiria e alguns, até mesmo, perguntariam “vais onde?”.

    Há pessoas, quer crianças, jovens ou adultos que falam de modo ‘diferente’: falam muito rápido e, ao mesmo tempo, parece que ‘comem’ partes de palavras, pois omitem palavras pequenas (por ex.: e; o; mas…), silabas e/ou fones. Para além disso, frequentemente explicam-se de modo ‘confuso’ e produzem enunciados como: “eu não sabia que ontem chovia porque não disseram hoje”. Tudo isto leva a que, quem os escuta lhes peça, por diversas vezes, que repitam, o que os leva a pensar que é implicância, pois não têm consciência e não identificam os seus ‘erros’. E se, por um lado, falam assim, por outro, não escrevem de modo diferente. Ou seja, aplica-se o comentário: “escrevem como falam!”. Desta forma, ouvi-los a falar ou a ler o que escreveram pode ser, por vezes, um desafio, ou algo um pouco engraçado, isto porque, poderão produzir enunciados como: “eu estou a dizer a verde”, enquanto queriam ter dito “eu estou a dizer a verdade”; “não sei responder a isso porque é algo do forno interno” (foro); “sentar à sombra da banheira” (bananeira); “o covid está a mergulhar” (melhorar); “compra canetas efervescentes” (fluorescentes). Este tipo de alterações não se corrige ou desaparece por si só, ou seja, aguardar que “isto com o tempo passa!” pode contribuir para sentimentos de frustração, entre outros.

    Quando é pedido, a pessoas com este tipo de dificuldades, que escrevam sobre um acontecimento, observa-se com frequência uma escrita com alterações, como por exemplo: “Eles foram à pesca e apanharam um tambor.” (tamboril). Ou “Na história o residente prato ganhou as eleições.” (presidente Renato). Alguns destes erros levam os adultos a pensar que a causa é falta de atenção, ou até mesmo, colocar a hipótese que a pessoa é um criativo cheio de imaginação. Muito provavelmente não é uma coisa nem a outra. Estas pessoas poderão ter Cluttering, o qual é um diagnóstico em Terapia da fala. Para além da alteração de linguagem e da fluência têm, ao mesmo tempo, alterações da escrita. As mesmas beneficiariam ser observadas por uma equipa multidisciplinar, com o objetivo de os capacitar para um discurso compreensível e uma escrita coerente.

    Tânia Capaz, Professora de Educação Especial
    Email: tania.capaz@pin.com.pt

    Jaqueline Carmona, Terapeuta da Fala, Linguista

    Email: jaqueline.carmona@pin.com.pt