• 12 JUN 21
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    «Estrelas & Ouriços – Artigo opinião » “O papel da terapia da fala na escola”– Dr. Filipe Silva (Terapeuta da Fala)

    O início de cada etapa escolar é sempre um marco importante na vida de todas as famílias. O entusiasmo, a ansiedade, o receio e a curiosidade são vividos por filhos e pais, mas com diferentes níveis e perspetivas.

    Em cada fase escolar existe um desafio novo e diferente: no pré-escolar, quando se dá um grande desenvolvimento da linguagem, através da interação entre os pares, de atividades, jogos de grupo e brincadeiras; no 1º ciclo quando se começa a aprender a ler e escrever; no 2º e 3º ciclos quando começam a aparecer novas disciplinas e novas matérias. Em todas estas etapas o Terapeuta da Fala (TF) pode ajudar. Este texto foca-se nas fases mais precoces (creche, pré-escolar e 1º ciclo) onde a intervenção pode decorrer nos vários contextos da criança, direta ou indiretamente.

    No contexto pré-escolar são detetadas, muitas vezes, algumas dificuldades na criança a nível da linguagem, comunicação e/ou fala. Dependendo de cada uma delas, a intervenção e o foco serão diferentes e personalizados de acordo com a criança e as suas rotinas.  Aprender a brincar ajuda a criança a adquirir competências mais facilmente! Aqui a intervenção pode decorrer diretamente com a criança no contexto de sala através de atividades livres e/ou estruturadas ou indiretamente através da observação e passagem de estratégias às educadoras e auxiliares.

    Cabe ao TF perceber qual será a melhor abordagem e o feedback de pais e educadores ajudará também a definir a eficácia da intervenção.

    Sabendo que estas aprendizagens fazem parte do desenvolvimento da criança, a articulação com todos os intervenientes é fundamental para o seu sucesso e bem-estar: pais, professores e técnicos devem estar disponíveis, coordenados e sintonizados nos objetivos da criança. Embora a intervenção em Terapia da Fala esteja maioritariamente associada a um contexto clínico de um para um com a criança, nem sempre este modelo é o mais adequado. A intervenção na sala de aula em conjunto com os educadores/professores é geralmente mais eficaz e muito mais lúdica. Além de ser contextualizada na rotina da criança, esta medida permite aumentar o número de parceiros (que possibilita a generalização das aprendizagens), cria mais oportunidades de aprendizagem (tendo os pares como parceiros) e permite também demonstrar aos educadores como é que essas estratégias podem ser aplicadas.

    Alguns exemplos práticos onde o TF pode intervir passam por:

    – Crianças com Perturbação do Espetro do Autismo que poderão ter necessidade de usar símbolos nas várias áreas da sala e um quadro de rotinas para que possam ser autónomos nas escolhas das atividades;

    – Crianças que usem sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa de alta ou baixa tecnologia;

    – Dificuldades articulatórias que tornam o discurso da criança menos inteligível, trabalhando com os educadores para criar momentos/atividades que permitam realizar este treino;

    – Dificuldades nos períodos de refeição (seletividade/sensibilidade alimentar) onde, com a ajuda dos pares, é possível criar novas dinâmicas;

    No 1º ciclo existe uma mudança significativa na rotina da criança: novas disciplinas, novos horários e menos tempo para brincar!

    Embora esta mudança implique uma alteração de contexto e um aumento das exigências na aprendizagem a articulação entre os diferentes intervenientes deve ser mantida. Retirar uma criança da sala de aula para ir ter terapia pode, por vezes, não ser benéfico. Assim, o papel do TF pode passar pela sala de aula, em articulação com o professor, ajudando na adaptação dos conteúdos escolares e na passagem de estratégias, dependendo das dificuldades da criança.

    Em qualquer fase da vida escolar e independentemente do diagnóstico/dificuldade da criança, o TF pode fazer a diferença! A comunicação e a articulação de todos os intervenientes são a chave para o sucesso.

    Autor: Filipe Silva, Terapeuta da Fala