• 06 ABR 21
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    «Estrelas & Ouriços – Artigo opinião » “Por que é que o meu filho leva tudo à boca?”– Dra. Inês Caniça

    Muitas vezes, surgem questões relativamente ao motivo pelo qual uma criança tende a levar objetos à boca… Como estará associada esta procura a uma questão sensorial?

    A verdade é que a sensação está presente ao longo da nossa vida desde o dia em que nascemos e, inevitavelmente, procuramos manter um equilíbrio sensorial. Mas em que consiste o nosso equilíbrio sensorial? De que forma está relacionado com a procura sensorial oral?De acordo com Blanche (2008) o equilíbrio sensorial é a capacidade para usar estratégias para organizar a sensação interna e externa. Essas estratégias ajudam-nos a organizar, a manter e a otimizar o nosso desempenho funcional na vida diária.Como seres sensoriais que somos, tentamos encontrar formas para nos autorregularmos e mantermos o nosso equilíbrio sensorial. De forma inconsciente, escolhemos determinadas estratégias comportamentais, atividades e ambientes para manter a nossa sensação de bem-estar.

    Quando éramos mais pequenos, muitos de nós certamente chuchámos no dedo, na chucha, em peluches ou na fronha. A verdade é que a nossa boca sempre foi uma grande aliada na nossa autorregulação.

    No nosso dia a dia, já mais “crescidos”, usamos estratégias sem nos apercebemos, que se referem ao desejo ou à procura de experiências sensoriais mais intensas para manter a sensação de bem-estar. Algumas das estratégias orais a que recorremos são por exemplo: morder uma caneta, mastigar uma pastilha elástica, comer um caramelo, colocar um palito na boca, mas que refletem uma procura adequada, segura e funcional.

    A boca como uma forma de conhecer o mundo… Mas até que ponto? Afinal o que é esperado e não esperado?

    Quando olhamos para o desenvolvimento normal da criança verificamos que em cada faixa-etária existem determinadas necessidades e preferências. Explorar objetos com a boca é normal nos primeiros anos de vida, uma vez que a boca, uma região reguladora, assume um papel de grande importância. É através da amamentação e com a necessidade de sucção, que a exploração oral se inicia. A sensação é tão agradável para o bebé, que é espectável que queira explorar e conhecer o que o rodeia através da boca.

    Lá vão os pés, as mãos… e o que vier! É a altura de experimentar novas sensações, texturas, temperaturas, de conhecer o próprio corpo e todo o ambiente envolvente.

    No entanto, após os dois anos de idade algumas crianças continuam a colocar objetos na boca, de forma desadequada, perigosa e pouco funcional. O problema surge quando estes comportamentos de procura oral começam a interferir no desempenho e na autonomia para realizar as atividades da vida diária. Por vezes, vemos crianças que mordem as mangas e as golas das camisolas, que colocam constantemente e os brinquedos na boca, que comem os lápis, colocam objetos incomestíveis na boca como pedras e pomadas, que para além de não ser funcional, poderá ser nocivo.

    E o que podemos fazer? Existem diversas causas e motivos que poderão fundamentar estes comportamentos e que devem ser cuidadosamente interpretados e avaliados. Será uma forma de chamar a atenção? Será que tem uma necessidade oral porque não foi amamentada anteriormente? Será que é uma forma de se autorregular?

    Muitas crianças apresentam comportamentos de procura sensorial para “sentir a boca” ou de forma a manter o seu estado de alerta e atenção na tarefa, tentando autorregular-se.  É necessário analisar o “Porquê?” e o impacto que esta procura tem no seu dia a dia, de forma a delinear estratégias eficazes. Temos de ter sempre em mente que cada criança é única e, como tal, é fundamental encontrar e definir as estratégias mais adequadas.

    Autores: Inês Margarida Caniça – Terapeuta Ocupacional, no Núcleo de Perturbações do Espetro do Autismo e Défices cognitivos

    Fonte: Estrelas & Ouriços