• 25 JAN 22
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    «Estrelas & Ouriços – Artigo opinião » TPC NO 1.º CICLO: K.O. AO PRIMEIRO ROUND – Dr. Mário Tribuzi

    Geralmente, os trabalhos de casa (TPC) definem-se como uma tarefa atribuída aos alunos, pelo professor, de realização obrigatória e no período posterior ao término das aulas. E será sobre este tipo de estratégia pedagógica que este artigo pretende discutir, nomeadamente quando aplicada a crianças entre o 1.º e o 4.º ano de escolaridade.

    De acordo com estudos nacionais e internacionais, não existe evidência científica robusta que comprove o efeito dos TPC refletido na melhoria do perfil pedagógico dos alunos. Apesar de se verificar ligeira eficácia dos TPC em alunos do 3.º ciclo e do ensino secundário, estudos cuja amostra se cinge a alunos no 1.º ciclo do ensino básico, mostram que a correlação entre a realização de TPC (e o tempo aí aplicado) e o incremento de competências académicas (relacionadas com o currículo escolar) é diminuta.

    Se assim é, porque continuam os TPC a ser um dos recursos pedagógicos mais utilizados nesta faixa etária?

    De acordo com investigações relacionadas com as perceções dos professores, os TPC são uma oportunidade para reforçar, treinar e rever conteúdo trabalhado previamente em aula e estão associados a boas competências de estudo, aprendizagem independente e desenvolvimento de boas atitudes académicas. E será com base nesta ideia que continuam a atribuir TPC às crianças do 1.º ciclo.

    Todavia, atualmente os TPC revelam-se como uma das abordagens pedagógicas que mais expõe e clareia as desigualdades sociais, culturais e económicas das crianças do 1.º ciclo. Isto porque é bastante desafiador para crianças com idades dentre os 6 e os 10 anos praticar estudo autónomo em casa… após um dia inteiro de aulas…

    – Podemos tentar incluir nesta equação o apoio dos pais, sim! Mas isso seria excluir todos os casos de alunos que quando chegam a casa, não podem contar com esse suporte parental/familiar pois os mesmos ainda estão a trabalhar, ou não têm competência pedagógica para auxiliar.

    – E também poderíamos ponderar que muitas crianças seriam capazes de realizar os TPC sozinhos pois têm acesso a livros de apoio, à internet e a condições materiais que as suportariam. E, aí, ignoraríamos tantas crianças que não têm acesso a esses recursos, nem a outros mais prioritários.

    – Claro que existem centros de estudos e ATL’s que (muito bem) conseguem organizar e dar ferramentas aos alunos para resolverem os seus TPC e outras tarefas escolares. Mas são serviços que não estão ao alcance de todas as famílias.

    Portanto, quando se preconiza que a atribuição de TPC permite maior transparência entre o aquilo que é o conteúdo escolar a as famílias, podemos estar a tirar uma conclusão falaciosa. Muitas vezes, torna-se um propulsor de tensão entre o pai – que, entretanto, já vestiu o papel de professor – e o filho – que não quer ser aluno em casa.

    Além das diferenças já referidas, o próprio perfil psicopedagógico da criança acentua as diferenças entre os alunos e as suas perceções relativas aos TPC. Aliás, é com base neste critério que se verifica um Efeito São Mateus (o rico fica mais rico e o pobre fica mais pobre) no desenvolvimento académico dos alunos do 1.º ciclo. Aqueles com melhores competências cognitivas e académicas estão mais bem preparados para a realização dos TPC do que os outros que revelam dificuldades na aprendizagem. Tal prejudicará o envolvimento dos alunos menos capazes, podendo conduzir à frustração, impaciência, baixa auto-estima e baixo auto-conceito académico.

    Por fim, o argumento mais esquecido pelos ‘crescidos’: o tempo que estes alunos não têm para serem aquilo que devem ser: Crianças! Em média, crianças entre os 6 e os 10 anos estão nove horas por dia na escola, ou seja, 45 horas semanais. Além deste tempo em que lá estão, trazem tarefas diárias e obrigatórias a completar no final do dia, ou no fim de semana, ou até mesmo nas férias escolares!! Não são raros os casos de crianças que prescindem de tempo de brincadeira, de lazer, de desporto ou de família, para que consigam cumprir com os TPC que lhes foram atribuídos. Acredito que não será necessária uma dose extra de empatia para perceber que estamos a exigir demais a estas crianças!

    Considerando que é na Escola que as crianças passam maior parte do seu tempo útil, deveriam ser reconsideradas as abordagens pedagógicas que procuram estimular o trabalho autónomo e o estudo independente. E é dentro das portas da Escola que estas tarefas (TPC) deveriam ser realizadas com monitorização e supervisão do adulto/professor.

    Mesmo assim, os professores poderiam sugerir ou recomendar tarefas pós-letivas para a criança realizar sozinha ou com a família e com impacto positivo no processo ensino-aprendizagem.
    Acredito que aquilo que já foi mencionado possa ser um desafio, pois todos nós sabemos que os professores têm uma turma inteira a quem dedicar toda a sua sabedoria e pedagogia. Porém dentro de cada um desses alunos mora uma criança que quer ser competente, mas que nunca deixa de querer brincar. E ainda bem!

    Mário Tribuzi, Psicólogo Educacional (Núcleo das Dificuldades de Aprendizagem Específicas)