• 11 FEV 20
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    “EU LEIO, MAS NÃO FICA NADA!” – A IMPORTÂNCIA DE DAR SENTIDO AO QUE LEMOS, Drª Iolanda Anunciação Tribuzi

    Atualmente, a informação chega-nos de várias formas e em variados formatos. Os textos estão por toda a parte, seja em formato digital ou físico, e entender o que eles dizem é uma necessidade para podermos participar eficazmente na sociedade, dando uso adequado à informação. Desta forma, compreender o que lemos torna-se uma competência de extrema importância nos dias de hoje.

    A leitura é uma das atividades mais importantes que a escola nos permite experienciar. Ler é mais do que descodificar, é extrair e construir significado através da interação e o envolvimento com a escrita.

    É exigido que o leitor seja ativo na tarefa de compreensão, sendo esta uma construção ativa de significado de um texto, processo esse onde o leitor tem um papel fundamental de criador e construtor de significados, com base numa interação entre o leitor e o texto. A construção de significados é o grande objetivo da leitura.

    Compreender um texto é, então, uma competência complexa que necessita de um conjunto de capacidades e estratégias para interagir de forma refletida e crítica com o texto escrito.

    Além do uso de estratégias cognitivas de compreensão, é necessário que o leitor consiga pensar sobre elas, avaliando se estão a ser eficazes e a servir o propósito a que se destinam, sendo indispensável nesta tarefa o desenvolvimento de capacidades metacognitivas.

    O uso de estratégias metacognitivas permite, por exemplo, que um leitor reconheça, no ato da leitura, se está a compreender o que lê e saiba agir de acordo com o nível em que se encontra, escolhendo as estratégias mais adequadas.

    Estas estratégias ajudam o leitor a assegurar-se de que atingiu eficazmente o objetivo a que se propôs. Estes processos estão relacionados com a definição do objetivo da leitura, com a seleção de estratégias e com a verificação da intenção com que os objetivos são atingidos e com a articulação de medidas corretivas se for caso disso.

    Todavia, nem sempre é fácil o desenvolvimento de estratégias metacognitivas durante o ato de ler. São cada vez mais frequentes os casos de alunos com dificuldades na compreensão que chegam à consulta de Dificuldades de Aprendizagem Específicas. Muitas vezes, são alunos com boa precisão e velocidade leitora, mas cuja fluência leitora não lhes é suficiente para alcançarem a compreensão do que estão a ler.

    No entanto, estas dificuldades na compreensão da leitura deverão ser analisadas atendendo ao perfil de cada criança, pois poderão ter na base o comprometimento de competências distintas. Existem crianças com diagnóstico de Perturbação de Aprendizagem Específica, com défice na Leitura, que apresentam lacunas ao extrair significado dos textos que leem, por despenderam um elevado esforço na conversão grafema-fonema.

    Por outro lado, poderão haver crianças, que por manifestarem dificuldades ao nível da comunicação, metacognição e compreensão, a interpretação também se encontra condicionada, como é o caso das crianças com Perturbação do Espetro do Autismo.

    E ainda poderemos ter crianças que não tendo qualquer tipo de diagnóstico que explique estas dificuldades, necessitam de um ensino explícito de estratégias para perceberem o que os textos dizem, bem como reorganizar a informação para a apreenderem de forma eficaz.

    De uma forma geral, existem práticas que podem facilitar uma maior compreensão da leitura:
    • Ativar o conhecimento prévio sobre o tema – Ter em conta a experiência e conhecimento do leitor e fazer uma “chuva de ideias”, despertando para o tema;
    • Monitorizar a compreensão – Verificar se a leitura está a fazer sentido e identificar as estratégias mais adequadas a utilizar.
    • Identificar a informação principal e acessória – Reconhecer o tema do texto, identificando a/as ideias principais tendo em conta o objetivo da leitura.
    • Sintetizar informação (ao longo da leitura) – Tirar notas durante a leitura, selecionando os conteúdos fundamentais. No final, permite ter uma visão ‘mais clara’ das informações do texto, favorecendo a retenção da informação.
    • Inferir – Relacionar as informações textuais com o conhecimento que o leitor possui, desenvolvendo a capacidade de extrair novas informações a partir do que está escrito.
    • Auto-questionamento – Prever a continuação do texto e formular perguntas para orientar a compreensão e alcançar níveis mais profundos de processamento da informação.

    Quando lemos, lemos com um objetivo. Lemos por prazer, lemos para conhecer algo novo, lemos para descobrir novas informações, daí ser importante ensinar de forma concreta e explícita como se compreende um texto. A compreensão da leitura é o nível superior desta tarefa, pelo que não poderá ser menos trabalhada e menos explorada que o nível da base – a descodificação.

    Esta exploração da compreensão da leitura, deve, no meu ponto de vista, ser trabalhada nas mais variadas disciplinas, em detrimento de ser foco apenas na disciplina de Português, uma vez que desempenha um papel fundamental na aprendizagem de outros conteúdos escolares e na vida fora da escola.

    Artigo desenvolvido por:

    Iolanda Anunciação Tribuzi, Técnica Superior de Educação