• 18 ABR 20
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    “Jogo em tempo de vírus” – Dr. João Faria e Dr. Pedro Rodrigues

    8 recomendações para se fazer um uso adequado do tempo de ecrãs nos lares em quarentena. 

    Ultimamente, a palavra vírus tinha-se tornado comum, sobretudo, no mundo informático. Era comum ouvir-se falar em infeção do computador, do dano provocado pelo vírus ou de como a vida se tinha virado de cabeça para baixo pelo desaparecimento de ficheiros provocados por um cavalo de troia. Hoje, o significado de vírus assumiu uma nova dimensão. Já não são as máquinas as principais ameaçadas pelo seu impacto. Os seres humanos estão agora no centro de uma pandemia sem precedentes, tentando manter as suas rotinas confinados a quatro paredes com possibilidades de saída muito esporádicas.

    É um tempo de reinvenção. Reinventa-se o modo de trabalhar, tornando-se o teletrabalho a ferramenta mais útil para muitas famílias manterem os seus vencimentos; também a Internet se mostrou muito útil para manter milhões de alunos em todo o mundo a par das aprendizagens, com a introdução da prática de aulas virtuais e envio de exercícios pela Internet para que em casa sejam feitos, com ou sem a ajuda de um adulto.

    Também no mundo dos videojogos este é um período de desafios e de oportunidades. Tendo-se tornado numa das maiores fontes de entretenimento no presente, estima-se que 80% dos lares da Ásia, Europa e América contem com a presença de computadores e consolas, as principais plataformas para aqueles que até há bem pouco tempo eram os videojogos dominantes do mercado. Porém, em 2020 já não se pode ter apenas em consideração estes dispositivos para se poder jogar: tablets e smartphones, ao alcance de um ainda maior número de indivíduos, tornaram-se suficientemente potentes para correrem videojogos que agradam a diferentes géneros, diferentes idades e diferentes tipos de jogadores. Jogar videojogos tornou-se uma forte tendência de entretenimento em 2020.

    Com os estados de emergência a serem cada vez mais decretados por tudo o mundo, e consequentemente o isolamento social a prolongar-se por períodos cada vez maiores, o estar em casa vai assumindo novos significados, sendo necessários que as famílias inventem e reinventem formas de ocupar o seu tempo, desde aquelas que são impostas pelo contexto, como por exemplo continuar a realizar exercícios escolares ou a trabalhar a partir de casa, como aquelas mais informais que remetem para o entretenimento e passatempo. É aqui que os videojogos se apresentam como uma enorme oportunidade de satisfação de diversas necessidades essenciais (entretenimento, sociais, informação, gestão das emoções) uma vez que permitem um envolvimento diferente de qualquer outra experiência, permitindo ao mesmo tempo um divertimento interativo e a possibilidade de comunicar com outros em tempo real.

    Ao mesmo tempo, surgem inúmeros desafios no que respeita ao controlo do tempo de jogo. De acordo com a organização mundial de saúde, o tempo adequado para se estar em frente a um ecrã não deve exceder as duas horas num mesmo dia. Confinados às nossas casas, torna-se muito difícil manter as regras de saúde mental em termos do tempo de utilização dos ecrãs, pois conciliar trabalho, escola e tempo livre nem sempre é fácil. Seguem-se então algumas recomendações para se fazer um uso adequado do tempo de ecrãs nos lares em quarentena.

    1. Tempos de jogo – tal como referido pela Organização Mundial de Saúde, 2h será o tempo máximo de visualização de ecrãs num dia. Sendo difícil cumprir atualmente esta recomendação, o mais importante é garantir que não é passado muito tempo seguido ligado a um ecrã, sendo aconselháveis pausas significativas entre ecrãs;
    2. Frequência de videojogos – uma dependência de videojogos deriva, anteriormente, da criação de um hábito de jogo, uma rotina que se repete habitualmente de forma diária até se transformar numa atividade dominante. Uma forte recomendação é diversificar os dias em que é possível jogar, mudando semanalmente dias e horários de jogo.
    3. Supervisão – mesmo com os pais em teletrabalho, na maioria das plataformas é possível fazer uma monitorização à distância da sua utilização. Seja através de aplicações num telemóvel (é possível verificar e limitar o tempo de utilização nas redes sociais ou até em consolas de jogo, como a Nintendo Switch) ou na própria consola/computador (a Playstation tem incorporadas definições de limitação do tempo de jogo que podem ser estipuladas por figuras parentais), é possível regular à distância o tempo de utilização.
    4. Alternar com outras atividades – as principais motivações para se jogar estão associadas às necessidades de prazer, de passar o tempo e de interação social. Estas necessidades podem ter múltiplas fontes de satisfação, incluíndo o contexto de casa. Desde outras modalidades de jogos (como por exemplo, jogos de tabuleiro), a atividades de culinária, leitura partilhada ou desenvolver uma nova competência, várias são as possibilidades do que se pode fazer dentro de uma casa.
    5. Segurança – sendo uma altura em que o tráfego de internet aumenta e diariamente são explorados diversos conteúdos online, mais do que nunca é fundamental manter os dispositivos seguros. O isolamento social tornará a deslocação até uma loja especializada para a resolução de problemas informáticos muito difícil, pelo que a atualização de um antivirus eficaz e uma verificação semanal pela presença de vírus (informático) deve ser uma rotina a estabelecer.
    6. Videojogos em conjunto – a experiência dos videojogos é muito satisfatória para quem os joga. É um momento verdadeiramente importante. Muitos pais escolhem manter-se totalmente afastados deste mundo, não se identificando com o mesmo. Porém, é muito interessante quando pais e filhos se unem através dos videojogos, proporcionando bons momentos relacionais e de trabalho em equipa. Alguns jogos são até dedicados exclusivamente à cooperação entre os vários jogadores, proporcionando melhoria ao nível das relações.
    7. Apagão – um enorme desafio para a maioria dos seres humanos é manterem-se afastados da tecnologia, sejam crianças, jovens ou adultos. Porém, quando privados das mesmas, são capazes de reinventar experiências que de outra forma não aconteceriam. Proporcionar um “apagão” tecnológico durante uma hora num dia, irá trazer às pessoas o que de mais essencial encontrarão nas suas casas – a si próprios.
    8. Ajuda especializada – mesmo durante este período incomum existirão situações que se tornarão difíceis de gerir, ou que já o eram e que tendem a piorar dado o isolamento social. Nestes casos extremos de utilização dos videojogos, num registo aditivo, as estratégias parentais não são suficientes para interromper os comportamentos. Nestas situações, deve ser procurado apoio especializado, junto de especialistas com formação adequada, para que seja iniciado um apoio psicológico (e por vezes psiquiátrico) adequado às exigências e necessidades da situação.

     

    Enfrentamos um tempo de enormes desafios pessoais e profissionais. Nenhuma das gerações que atualmente vive lidou com uma situação semelhante. Estar em casa por obrigação é raramente uma possibilidade no quotidiano pelo que as famílias não possuem “guiões” para saber o que antecipar destes tempos… temos que ir construindo à medida que os vivemos. Gerir o tempo de utilização dos ecrãs, em particular os videojogos, é um grande desafio mas com soluções fáceis ao alcance de todos. Pode inclusive tornar-se um momento de fortalecimento das relações familiares, com novas oportunidades de crescimento e desenvolvimento.

    João Faria – Psicólogo clínico

    Pedro Rodrigues – Psicólogo clínico

    Pin – Progresso Infantil

    Fonte: Divisão de Estatística e Investigação / Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) / Ministério da Saúde