• 15 JUL 20
    • Pin It

    “O meu filho tem um amigo imaginário! Será motivo de preocupação?” Um texto da Dra. Magda Alves & Dr. Ana Maria Garcia , Psicóloga Clinica

    “Um dia percebemos que a Joana conversava, ria, brincava e até partilhava aventuras com alguém que não era visível para nós e só ela conseguia ver”.

    Se há algo que assume um verdadeiro marco no desenvolvimento e carateriza a infância são as brincadeiras típicas do “faz-de-conta”, como brincar “às mães e aos pais” ou aos “super-heróis”.

    Nesta brincadeira simbólica a criança, por meio da imaginação, assume diversos papéis e experimenta o mundo social de um modo ativo e dramático. A criança explora as emoções e compreende o mundo no qual está inserida, ao verificar as consequências dos seus atos através de uma diversidade de brinquedos e diferentes cenários.

    Ao recriar, através da brincadeira, situações reais ou de fantasia, a criança vai dando diferentes significados ao mundo que a rodeia, vivenciando situações diversas, quantas vezes e da maneira que ela quiser, explorando a relação com os outros, desenvolvendo um leque de sentimentos e interiorização de regras sociais.

    Entre as diversas formas que a brincadeira do faz-de-conta pode assumir, existe uma que se distingue pela sua singularidade: a criação de amigos imaginários. Há crianças que criam o amigo imaginário, que se caracteriza por ser uma personagem invisível e que não depende de suporte físico ou pode ser projetado, que se centra em objetos, como nos seus brinquedos especiais, mas que vive somente na imaginação da criança. É uma personagem que nasce da criatividade da criança e da sua necessidade de preencher a realidade de forma acolhedora e segura.

    Muitas vezes, essa amizade é tão rica e tão cheia de detalhes que é uma surpresa para a família. Muitos pais ficam preocupados e até assustados com esta relação, contudo o facto da criança se mostrar absorvida e emocionalmente envolvida com suas criações não indica que possa estar a confundir realidade e fantasia.

    Aliás é algo que investigação nesta área tem demonstrado, ter um amigo imaginário não é de todo um sinal de alarme, mas sim algo esperado e natural. As crianças que têm amigos imaginários são geralmente tão bem integradas socialmente como as outras, e estes não são substitutos das relações com as pessoas de “carne e osso”. Segundo os estudos nesta área, a sua presença está inclusive relacionada com caraterísticas positivas ao longo do desenvolvimento, tais como uma melhor evolução a nível da linguagem, da socialização e uma cognição social mais apurada.

    Embora não seja algo transversal a todas as crianças, muitas experimentam esse tipo de companhia em algum momento da infância.

    A criança tem plena noção de que seus amigos imaginários são de faz-de-conta, inclusive definem-nos assim. Com esse amigo, a criança conversa sobre as suas alegrias e tristezas, dos desejos e conquistas e atribui-lhe os seus comportamentos e emoções. O seu companheiro oferece segurança e proteção emocional e até tem a função de assumir a culpa por algo que a criança se sinta julgada. Tal como o nome indica, para a criança é um verdadeiro amigo, que ajuda a combater os medos, é uma figura securizante e que ajuda a lidar com a solidão em momentos de separação ou mudança. Esse amigo pode ter um lugar reservado na mesa de refeição, na cama e até na escola.

    A relação da criança com o amigo invisível pode ser tanto amigável quanto conflituosa, como é bem explícito nas histórias de Banda Desenhada de Bill Watterson “O Calvin & Hobbes”. Sendo o Calvin um menino de seis anos de idade criativo e aventureiro, que brinca com o seu companheiro inseparável Hobbes, um tigre sábio e sarcástico, que “ganha” vida sempre que estão sozinhos, mas para os outros não é mais que um tigre de peluche.

    O amigo imaginário surge por volta dos 3 anos, coincide com o desenvolvimento da linguagem oral e com o uso da imaginação, mas o mais comum será entre os 4 e os 5 anos, quando a criança está no pico do período de representação simbólica. Com 7 anos, tende a despedir-se, pois os amigos reais tornam-se muito mais interessantes e as brincadeiras mais desafiantes. O que antes estava centrado na imaginação é transformado em sentimentos reais e próprios do desenvolvimento emocional e cognitivo.

    No entanto, há sinais de alerta que deverão deixar os pais atentos com a presença deste companheiro na vida do seu filho e que não tem exatamente a ver com a idade. Além da preocupação do amigo imaginário não ir embora com o avanço da idade, os pais também terão que se focar na intensidade e no tipo de brincadeira. Independentemente da idade do seu filho, a presença do amigo imaginário não o pode afastar de suas atividades do quotidiano, nem substituir a socialização com crianças da sua idade ou fechar-se sobre si próprio, muito menos desenvolver uma relação agressiva ou violenta. Se os pais perceberem que essa interação está demasiado dependente, não querendo deixar o seu amigo, se está a isolar ou com alterações na alimentação ou sono, será necessária uma observação por um médico ou psicólogo especializado, para tentar compreender este “mundo da fantasia” ou a “fuga da realidade”.

    É também importante que o adulto tenha alguma cautela com a forma como se refere ao amigo imaginário. Se por um lado é importante respeitar que o seu companheiro é real para a criança e algo que pertence ao seu íntimo, por outro lado e por parecer inofensivo, não se dirija ao amigo imaginário como uma presença concreta e que sirva para obter algo da criança, como por exemplo “ traz o teu amigo para a mesa para te ajudar a comer” ou “ ele vai ficar zangado se souber que estás a fazer uma birra”. A criança precisa ter verdadeira consciência de que o amigo vem somente da sua imaginação.

    Embora seja um limbo difícil de gerir, entre não desfazer o mito da criança e não dar continuidade à sua realidade, os pais não devem dar demasiada importância ao assunto, sendo esta a atitude mais sensata. Devem continuar a promover a socialização e incentivar a criança a participar em atividades coletivas, como em festas, frequentar um desporto de grupo, ir ao parque ou dinamizar qualquer situação que favoreça o contato com crianças reais.