• 09 NOV 20
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    «Sapo – Lifestyle – Artigo opinião » “O Halloween não se esgota no final do mês de outubro para algumas crianças” – Dra. Rita Nogueira

    O final de outubro acolhe os rituais e costumes associados ao Halloween. Crianças e adultos ganham novas vidas vestidos de vampiros, bruxas e fantasmas.

    Os espaços transformam-se com acessórios sombrios e arrepiantes: teias de aranha, sangue, “morcegos a voar”, abóboras personificadas e esqueletos deambulantes. Doces peculiares, gomas de olho humano, caveiras e dentaduras… entram em ação as histórias, mitos e lendas aterrorizantes. É hora de assustar e ser assustado! É um momento antecipado e vivido com grande entusiasmo e alegria, mas não para todos.

    As pessoas e os espaços que outrora eram familiares e previsíveis disfarçam-se inesperadamente de algo pouco familiar, misterioso e obscuro – fonte de dúvida e receio para algumas crianças. Os pais deparam-se com um estado de tensão geral que se apodera das crianças.

    Alguns comportamentos de evitamento, choro ou apreensão, tornam pouco provável o contacto com as máscaras de “terror” e os cenários descritos. No Halloween simula-se o sobrenatural de uma forma “darkside” que para algumas crianças ainda está aquém da sua compreensão.

    Embora o Halloween se associe formalmente a esse sentido de fantasia e terror, é sabido que para lá desta comemoração, mitos e lendas são contados e divulgados ao longo do ano. “A Maria Sangrenta”, “A Chorona”, “A Freira Maldita” são algumas entre tantas histórias que assombram e amedrontam geração após geração. Os adolescentes reúnem-se e aproveitam para colocar uma pitada de adrenalina no convívio e testar a “coragem” de cada um. Nas gerações mais novas prevalece a inquietação e medo de que as histórias e personagens sejam reais.

    O Halloween não se esgota no final do mês de outubro para algumas crianças

    Pensamentos sobre a existência de personagens e situações sobrenaturais (p.e., bonecos mexerem-se e poderem fazer mal), visitam-nas em vários momentos do ano, fomentando o susto, o pânico ou a fobia (p.e., não frequentar feiras com medo do aparecimento do “palhaço assassino”).

    Entre as manifestações mais comuns podemos encontrar as dificuldades em adormecer, medo do escuro, medo de ficar sozinho na casa de banho e/ou pesadelos relacionados com fantasmas, monstros ou figuras fantasiosas.

    Para os pais, cuidadores ou outros adultos, pode não ser fácil compreender a razão que leva as crianças a temer ou acreditar em algo que parece tão irreal e descabido. A resposta está no “cérebro em desenvolvimento”.

    Para crianças com menos de 6/7anos o limite entre a fantasia e a realidade é ainda bastante confuso

    Se, por um lado, esta fusão com o imaginado permite libertar a criatividade e iluminar um mundo maravilhoso de fadas, sereias e super-heróis, por outro lado, o revés da moeda, a existência do “lado negro e perigoso”. Para estas crianças permanece a ideia de que vampiros, monstros e qualquer outra criatura maliciosa é capaz de invadir o seu espaço, de as assustar ou atacar.

    Assim, conteúdos sobrenaturais podem constituir estímulos desconfortáveis, temíveis e perturbadores. Para este pequeno cérebro em crescimento ainda não é intuitiva a expressão “é a fingir”. Como tal, podem sentir-se pouco seguras quando confrontadas com histórias, vídeos ou filmes de “terror”. A capacidade de perceber que as personagens são fantasia e que não têm vida no mundo real vai sendo adquirida.

    Entre os 7 e os 12 anos é comum os conteúdos temíveis transitarem para fantasmas ou espíritos

    Esta realidade é explicada não pelo pensamento mágico, característico da faixa etária anterior, mas sim por uma outra característica adquirida no decorrer do desenvolvimento cognitivo – a reversibilidade. Durante o crescimento, as crianças são capazes de compreender que há fenómenos reversíveis, percebendo que é possível voltar a uma situação anterior.

    Os fantasmas e espíritos, que muitas vezes pertencem ao elenco das histórias e mitos de terror narrados, detêm esse poder – perante a morte, conseguem voltar ao “mundo” podendo interferir e lesar os mundanos (i.e., a própria criança). Perante tal crença ou dúvida é natural que fiquem ansiosas e assustadas, desenvolvendo a sensação de “perigo iminente”.

    Muitos destes medos ganham maior força ao anoitecer. O escuro associa-se à imprecisão do que se vê e isso dá “pano para mangas” ao nosso cérebro, e à grande trabalhadora que lá habita – a imaginação. Perante algo tão ambíguo e vago (escuro) a nossa mente emite sinais de potencial perigo, como se de uma torre de controlo se tratasse: “Não se consegue ver … será que está ali algo ameaçador? Que possa ferir ou magoar? O melhor mesmo é alertar: cuidado que podem haver monstros; cuidado que ali podem estar fantasmas para te fazer mal…”.

    Por outro lado, a transição para o adormecer é um momento que implica, na maioria das vezes, que a criança fique sozinha, dando-lhe a sensação de maior desproteção perante os potenciais perigos (imaginados).

    A internet propicia um aumento da prevalência dos medos relacionados com a fantasia e o sobrenatural. Os conteúdos propagam-se e chegam a todos, sem filtros sem censura de idade. Principalmente para crianças perto da pré-adolescência “estar on” é também estar a par do que se partilha.

    Ao adquirirem uma maior destreza e autonomia a navegar pela internet confrontam-se com filmes, vídeos, imagens ou histórias que espelham essas temáticas. Contudo, como referido anteriormente, o seu desenvolvimento cognitivo nem sempre permite integrarem e assimilarem esta informação de uma forma racional e lógica.

    Para os mais novos, como a compreensão do mundo está dependente do que é concreto, acresce a dificuldade em entender que nem tudo o que está na internet é real, mesmo que existam imagens ou vídeos (fictícios).

    Assim, o contacto com o terror e sobrenatural pode desencadear algo penoso na maioria das crianças até por volta dos 12 anos. É importante não esquecer que mesmo não fazendo sentido para os mais adultos, para algumas crianças estes medos são bastante reais.

    Deixe-a expressar-se! Sintonize-se com a perspetiva e o “cérebro em crescimento” da criança (Se acreditasse realmente que poderia estar também em perigo, não ficaria igualmente assustado?). Transmita-lhe que está segura (mantendo as rotinas habituais – continuar a dormir no seu quarto ou a ficar sozinha na casa de banho mesmo que necessite de alguma ajuda/tranquilização).

    Ridicularizar ou chatear-se não faz com que o medo desapareça, ele permanece camuflado pela vergonha que não permite que a criança se expresse com receio de ser criticada.

    Acima de tudo, esteja atento aos sinais de alarme e procure ajuda se persistirem: dificuldade em adormecer e/ou dormir sozinho, pesadelos, medo do escuro, dificuldade em mover-se sozinho entre divisões da casa ao anoitecer ou irritabilidade.

    Texto: Psicóloga clínica Rita Nogueira (Núcleo de PHDA – Consulta da Ansiedade)

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