• 05 DEZ 20
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    «SapoLifestyle – Artigo opinião » “A relação terapêutica nas Perturbações do Espetro do Autismo” – Dr.ª Carla Oliveira e Dr. Pedro Rodrigues

    Ainda que os estudos sobre relação terapêutica nas Perturbações do Espetro do Autismo sejam escassos, os que existem têm identificado a relação terapêutica como um fator preditor de melhores resultados no tratamento de jovens e adultos que sofrem de PEA.

    A intervenção psicoterapêutica com crianças, adolescentes e adultos com Perturbação do Espetro do Autismo pode ser desafiante, mas também é, na nossa perspetiva, das experiências mais ricas que um/a psicoterapeuta pode vivenciar.

    Sem dúvida que as evoluções dos clientes e ganhos terapêuticos são uma forma de avaliação da eficácia do processo terapêutico. Não obstante, é a relação terapêutica que se estabelece com cada criança, adolescente e adulto que molda, define e orienta este processo, precisamente porque esta é essencial para que o cliente se ligue ao processo terapêutico na procura de mudança.

    Ainda que os estudos sobre relação terapêutica nas Perturbações do Espetro do Autismo sejam escassos, os que existem têm identificado a relação terapêutica como um fator preditor de melhores resultados no tratamento de jovens e adultos com Perturbação do Espetro do Autismo. No caso das crianças no Espetro do Autismo, os estudos têm revelado que a relação terapêutica é a principal responsável por mudanças clínicas na severidade dos sintomas, mas também nas competências sociais, principalmente quando os terapeutas estão em sintonia emocional com o estilo de comunicação e de interação dos seus clientes.

    Consoante o perfil de interação e comunicação das crianças, jovens e adultos com Perturbação do Espetro do Autismo observam-se maiores ou menores dificuldades no desenvolvimento de uma relação terapêutica. Mas, em todos os casos, uma coisa é certa: a relação terapêutica começa quando o psicoterapeuta se disponibiliza e se interessa por aquilo que são os interesses do seu cliente.

    Sem dúvida que esta é a prática comum, mas com indivíduos no Espetro do Autismo esta é a chave de ouro para se conseguir iniciar uma relação terapêutica. Muitas vezes, este processo de criação e fortalecimento da relação demora meses. Outras vezes, mais de um ano.

    Durante esse tempo, o psicoterapeuta já aprendeu o nome científico dos principais dinossauros, já viu mais de 50 vídeos sobre gatos e outros felinos, já ouviu falar de todos os videojogos do Super Mário e, no meio disto, vai começando a colecionar informação valiosa acerca do seu cliente.

    Esta relação que é extremamente importante para a intervenção terapêutica torna-se, também, uma relação que influencia e modela a relação que a criança, adolescente e adulto com Perturbação do Espetro do Autismo vai desenvolver com outras pessoas.

    A relação estabelecida no ambiente clínico consegue mostrar ao cliente aquilo que é expectável num momento de conversa, num momento de partilha de experiências E num momento de jogo e é por isso que todos estes momentos são extremamente ricos nas terapias.

    Recentemente, falamos do silêncio que muitas vezes paira nas consultas, mas que, por vezes, com crianças, adolescentes e adultos no Espetro do Autismo ganha outro significado. Às vezes o silêncio significa «não tenho nada para te dizer», «não me apetece conversar», «prefiro ouvir-te», «conversar é demais para mim, hoje».

    Estes silêncios são melhor compreendidos à medida que a relação terapêutica se estabelece, pois só atendendo a este perfil de comunicação e de interação é que se consegue avançar no processo terapêutico.

    Destacamos duas adolescentes que estabeleceram uma relação sólida e segura com a sua psicoterapeuta. Ambas têm pouca iniciativa comunicativa e, em certas consultas, há pouco diálogo; muitos sorrisos e monólogos, mas pouca vontade para conversar.

    Nestes dias, o objetivo da psicoterapeuta é respeitar esta vontade/necessidade, mas também planear atividades que lhe dá a oportunidade de continuar a reforçar a relação terapêutica. Nestes dias, opta por fazer o que elas mais gostam: falar sobre animes (e.g., pokemons, kirby), ver vídeos de gatos (e.g., bebés, gordos, pretos, laranjas, a miar, a dormir, etc.) ou fazer algum jogo que envolva a componente de desenho.

    Por vezes, durante estas atividades, consegue estabelecer um pequeno diálogo, mas noutras vezes este torna-se unicamente um momento de partilha e de apreciação mútua, pois elas desenham, mas também desenha a psicoterapeuta.

    No outro dia, um adulto no Espetro do Autismo começou uma nova atividade: retraduzir poemas, originalmente escritos na língua inglesa. Disse à sua psicoterapeuta que não partilhou este hobbie com mais ninguém, mas no início de todas as consultas quer mostrar-lhe o novo poema retraduzido. Pede-lhe que o leia, em inglês, em voz alta e, durante este momento, está muito atento às suas reações.

    No final, quer sempre saber a opinião da psicoterapeuta e aceita tudo o que esta tem para lhe dizer. Aceita também a sua gargalhada sobre o tema, pois sabe que esta é genuína, sabe que é por prazer, diversão, sabe que é uma gargalhada segura.

    São estes pormenores e partilhas que funcionam como garantia para o psicoterapeuta de que a relação terapêutica com o seu cliente está estabelecida ou próxima disso. São estes momentos que permitem começar um trabalho onde a relação terapêutica irá fornecer oportunidades únicas para crianças, adolescentes e adultos no Espetro do Autismo poderem aprender, praticar e lidar melhor com situações sociais.

    Em suma, é possível estabelecer uma relação terapêutica com todas as crianças, adolescentes e jovens adultos com Perturbação do Espetro do Autismo, se se atender às suas características e se o conhecimento sobre estas for integrado, respeitado e compreendido na construção desta relação.

    Texto: Dra. Carla Oliveira & Dr. Pedro Rodrigues, Psicólogos

    Fonte: SapoLifestyle