• 21 MAI 22
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    «SapoLifestyle – Artigo opinião » “Autismo: Como ajudar o meu filho a falar sobre os sentimentos?” da Psicóloga Carla Marques

    A investigação mostra que crianças com Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) enfrentam muitos desafios em termos sociais que se encontram relacionados com dificuldades no que toca à sua competência emocional, o que se traduz, muitas vezes, em problemas de comportamento.  

    É importante atendermos a estas dificuldades, considerando de que forma podemos promover as competências emocionais das crianças com PEA nos seus principais contextos de vida. 

    Frequentemente encontrarmos lacunas não só na sua capacidade de expressão emocional, mas também na interpretação que fazem sobre o que outra pessoa está a sentir. 

    Desta forma, a promoção das competências emocionais deve ser tida em conta desde os primeiros anos de vida. Seguem-se algumas estratégias para crianças mais pequenas que podem ser desenvolvidas em família:

    – Estimular a identificação de emoções

    Utilize imagens ou expresse no seu rosto uma variedade de expressões faciais e peça ao seu filho para identificar qual é a emoção presente. Para que a criança comece a reconhecer e expressar as suas emoções incentive a realização das mesmas em frente ao espelho, de forma a perceber mais facilmente as alterações na expressão facial.

    – Intensificar os indicadores comportamentais das emoções

    As crianças com PEA podem estar menos atentas às pistas emocionais, sendo importante os adultos intensificarem os indicadores comportamentais das emoções (ex.: chamar á atenção para os detalhes mais relevantes no rosto do adulto, fazer uma expressar facial mais intensa, elevar o tom de voz ou o choro), para facilitar a captação da atenção por parte da criança.

    – Validar o que o seu filho está a sentir e encorajá-lo a conversar sobre isso

    Evite discursos, como: “Não fiques zangado, por perderes o jogo” ou “Não devias ficar triste”. Todos nós ficamos tristes e zangados em várias situações da nossa vida. Porque não poderiam as crianças experimentar também sentimentos negativos? Em vez disso, opte por validar aquilo que a criança está a sentir. Por exemplo, ao ver o seu filho chorar, porque estragou um brinquedo, pode dizer algo como “Estou a ver que estás triste, porque estragaste o teu brinquedo, queres explicar-me o que aconteceu?”.

    – Exprimir os seus próprios sentimentos 

    Aproveite as situações do dia a dia para partilhar os sentimentos que despertaram em si ou, depois de ouvir o seu filho falar sobre os sentimentos dele, pode partilhar uma experiência sua que seja semelhante (ex.: “Eu também já me senti-me mesmo muito triste, quando estraguei o quadro que tinha no escritório”), para que a criança perceba que os adultos também vivenciam diferentes sentimentos positivos e negativos e que não há nada de errado com isso. 

    – Apoiar a regulação emocional do seu filho

    A capacidade de regulação emocional vai-se desenvolvendo ao longo dos primeiros anos de vida. Não podemos esperar que uma criança pequena consiga regular-se sozinha num momento de frustração. Uma melhor regulação emocional da criança numa situação “difícil” dependerá da sensibilidade do adulto e da sua capacidade de co-regular (regular com a criança) esse momento, que por sua vez, está dependente da regulação emocional do próprio adulto. Ou seja, importa que esteja calmo, para ajudar o seu filho a acalmar-se. Será necessário encontrar com a criança formas desta se acalmar (ex.: “Quando estás zangado podes respirar fundo, dar uma corrida, contar até 10”). Com crianças com PEA pode ser muito importante a utilização de pistas visuais das estratégias e o adulto servir como modelo (ex.: “Vou respirar fundo, faz comigo”). 

    – Utilizar os momentos lúdicos para abordar as emoções

    Nas brincadeiras de faz de conta (ex.: com os bonecos) pode criar situações em que as personagens expressam aquilo que estão a sentir mediante as situações que acontecem. Ou então, no momento em que está a ler um livro ao seu filho pode optar por enfatizar, colocar questões e fazer comentários, acerca dos sentimentos das personagens, das situações que os despoletaram e de possíveis estratégias de regulação emocional. Nestes momentos pode aproveitar para questionar a criança sobre os seus sentimentos, de forma a relacionar as emoções com a experiência da criança. (ex.: “Tu também já te sentiste assustado como o coelhinho da história?”). 

    – Elogiar o esforço e os pequenos progressos

    Ao longo do processo de aquisição das competências emocionais nas crianças com PEA é fundamental valorizar cada pequena conquista do seu filho. Por exemplo, se antes a criança apresentava uma elevada desregulação emocional – gritava, batia e se escondia debaixo da mesa a chorar – quando perdia um jogo e, atualmente apenas chora um pouco mas rapidamente recupera, é importante valorizar e elogiar a criança pelo seu esforço! 

    Ao receber os elogios, o seu filho vai sentir-se mais confiante para lidar melhor com os seus sentimentos e vai aumentar a probabilidade de voltar a “correr bem” da próxima vez. 

    Por último, não esquecer! É fundamental assegurar ao seu filho que todos os sentimentos, sejam mais ou menos confortáveis, são válidos. O que pode não ser válido ou adequado é o que fazemos com eles.

    Um artigo de Carla Marques, Psicóloga do Núcleo de Perturbações do Espetro do Autismo e Perturbações da Eliminação da Equipa PIN-Porto.