• 02 FEV 21
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    «SapoLifestyle – Artigo opinião» “Sou professor de um aluno com Síndrome de Tourette. E agora?”– Dr. Tiago Ribeiro

    A Síndrome de Gilles de La Tourette (ST) é uma perturbação neurológica que afeta e o sistema nervoso provocando tiques – movimentos ou sons repetitivos e repentinos – que algumas pessoas fazem, aparentemente sem se aperceberem.

    Os principais sintomas da ST são tiques motores múltiplos e pelo menos um tique vocal.

    Os tiques motores podem ir desde piscar de olhos exageradamente, a fazer caretas ou sacudir a cabeça.

    Alguns exemplos de tiques vocais são pigarrear, emitir sons, fungar, tossir ou gritar.

    Algumas formas podem incluir ainda a produção de gestos inapropriados (copropraxia) ou palavras obscenas (cropolalia).

    “Mas, sempre que um aluno tem tiques, tem Síndrome de Tourette?” Não. Se não existir a combinação de tiques motores e vocais, poderá tratar-se de uma Perturbação de Tiques Motores ou Vocais.

    Apesar da ST não ser das perturbações do neurodesenvolvimento mais frequentemente diagnosticadas, os tiques são mais comuns em crianças e adolescentes do que se pensa.

    É relativamente comum conhecermos alguém que tem um tique motor (como piscar exageradamente os olhos) ou um tique vocal (som de pigarrear ou tossir), mesmo que seja aparentemente transitório.

    A causa exata da ST não é inteiramente conhecida, mas algumas pesquisas sugerem a presença de alterações na forma como algumas áreas do cérebro comunicam entre si.

    Trata-se de uma alteração genética, o que significa que é o resultado de uma transformação nos genes que é herdada ou que ocorre durante o desenvolvimento intrauterino.

    Tal como acontece com outras condições genéticas, alguns indivíduos podem ter uma maior tendência a desenvolver a ST, pelo que a análise do histórico familiar é fundamental na análise diagnóstica.

    As pessoas com ST geralmente identificam os primeiros sintomas na infância ou adolescência e apesar de ser mais frequente nos rapazes, pode surgir também nas raparigas. Em certos momentos, como quando a criança está sob elevados níveis de stresse ou ansiedade, os tiques podem se tornar mais intensos, frequentes e podem até alterar de forma e combinação.

    No contexto escolar, pela presença de maior estimulação, stress, momentos de ansiedade ou cansaço, os tiques poderão tornar-se mais intensos ou expressivos. Em alguns casos, poderão ser interpretados como comportamentos de desafio, como pode acontecer pelo revirar de olhos, o pigarrear ou simplesmente pelo facto não serem suprimidos quando o mesmo é solicitado.

    De facto, algumas crianças conseguem suprimir os seus tiques por um curto período. Porém, denota-se um aumento da tensão associada a este controlo, levando a momentos posteriores de maior expressão dos tiques, chamados de “tempestade de tiques”.

     

    É essa razão pela qual, com alguma frequência, uma criança com ST que não produz tiques durante todo o dia de escola o faz assim que entra no carro dos pais, a caminho de casa.

    Para além do aumento da tensão, a supressão dos tiques implica, com frequência, que a criança esteja concentrada no evitamento do tique, o que dificulta a manutenção da atenção e a participação nas tarefas escolares.

    Por outro lado, a própria presença dos tiques pode afetar o comportamento na sala de aula e a disponibilidade para aprender, já que tiques que envolvam os olhos, o pescoço ou as mãos poderão limitar a capacidade para ler e/ou escrever com a fluência desejada.

    O mesmo pode acontecer quando estão presentes tiques vocais que interferem com a capacidade de, por exemplo, ler em voz alta.

    Algumas das sugestões para os professores de alunos com tiques ou o diagnóstico de Síndrome de Tourette são:

    – Fale com o seu aluno sobre o assunto, mostrando uma atitude empática e compreensiva.

    – Combine um código ou pista que possam usar quando for necessário fazer uma pausa ou um pedido de ajuda, relacionado com os tiques.

    – Procure incentivar a turma, equipa escolar e outros pais a conhecerem e compreenderem a Síndrome de Tourette.

    – Desmistifique: a síndrome não é contagiosa; o tique não é controlável; a criança não faz de propósito nem para irritar. Aproveite para introduzir o ideia de que algumas personalidades bastante conhecidas têm o diagnóstico de ST, como a cantora Billie Eilish, o futebolista David Beckham ou o compositor Mozart;

    – Ignore os tiques, sempre que isso for possível e procure não fazer atribuições negativas como pedir à criança para sair da sala de aula ou repreendê-la;

    – Em momentos de maior expressão dos tiques, tente incluir o aluno em tarefas que o retirem da tarefa e que lhe permitam reduzir a ansiedade;

    – Se for necessário, forneça mais tempo para a realização das provas ou a possibilidade de realizar a prova num momento ou sala à parte;

    – Considere a possibilidade de existirem outras condições associadas, como a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção, Ansiedade, Perturbação Obsessivo-compulsiva ou Perturbação do Espetro do Autismo e tente, sempre que possível, sugerir a avaliação clínica e o acompanhamento terapêutico;

    Por último, recorde-se que a Síndrome de Tourette não tem uma cura, mas que a intervenção psicoterapêutica, farmacológica e a adoção de medidas em contexto familiar e escolar, poderão minimizar o seu impacto e facilitar a vivência do dia-a-dia da criança com tiques.

    Texto:  Tiago Ribeiro – Psicólogo Clínico

    Fonte: SapoLifestyle