• 18 OUT 21
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    «SOL – Entrevista » “Ainda há muitas pessoas que têm medo de dizer que sofrem de uma doença psiquiátrica“ – Dr. Henrique Prata (Psiquiatra)

    Aos 31 anos, é psiquiatra no Hospital Beatriz Ângelo e também exerce no setor privado, defendendo que todas as pessoas que sofrem de perturbações psiquiátricas têm direito a receber os cuidados de saúde adequados. É autor da obra “Urgências Psiquiátricas”, lançada em 2018, e está a planear publicar uma obra sobre a depressão. Enquanto professor assistente da cadeira de Psiquiatria, quer ser o professor que gostaria de ter tido. Dedica-se ao Health Parliament Portugal e apela ao Executivo que seja realizado um investimento superior na área da Saúde Mental. Nos tempos livres, podemos encontrá-lo a jogar rugby, a passear pelo Jardim da Gulbenkian ou no Lux.

    Porque é que decidiu começar a estudar Medicina em 2007? Sempre teve esta ambição?

    Não. Em pequenino, dizia que queria ser médico mas, gradualmente, fui-me questionando. Quando me candidatei à faculdade, não sabia bem se queria ir para Direito, Economia ou Medicina. A dúvida final ficou entre o primeiro e o último e optei pela Medicina por achar que era o caminho que permitia uma maior abrangência e conciliar a Medicina e o Direito algum dia e, daí, eu também trabalhar na área da Psiquiatria Forense e na vertente das políticas da saúde.

    Como é que correu o período de Erasmus Universidade Complutense de Madrid?

    Hoje em dia, é uma cidade que visito muitas vezes por ano. Fiquei com amigos lá e que reencontro. Acho que, na altura, escolhi-a por ser a maior disponível. Queria ir para uma grande que não fosse da dimensão de Coimbra, pois essa já conhecia. Ainda bem que a escolhi porque é ótima e gostei bastante, mas não houve um motivo especial.

    Quais são as melhores memórias que guarda do seu período enquanto estudante?

    O rugby esteve sempre presente e joguei-o durante os seis anos do curso. Ainda o faço, mas já não num ritmo tão competitivo. E há toda a parte dos amigos que trago comigo ainda hoje. Não se tornaram recordações. A parte do ensino é um pouco como em qualquer curso: tive professores muito bons, outros maus… Apanhei os dois, mas, felizmente, cruzei-me com muitos excelentes e muitos deles ainda mantêm contacto comigo. Por acaso foi esta semana aceite um artigo para publicação sobre o impacto da covid-19 e do isolamento na saúde mental e agradeço no artigo a dois professores de Coimbra que me ajudaram no processo – Joaquim Murta e Carlos Robalo Cordeiro.

    É natural da Cidade dos Estudantes, mas alguma vez desejou vir estudar para Lisboa, por exemplo?

    Sim. Como todas as quartas tinha de fazer a viagem Coimbra-Lisboa para treinar no Estádio Nacional, com a Seleção, a partir do terceiro ano ponderei pedir transferência. Mas os planos curriculares não eram compatíveis e acabei por ficar em Coimbra, senão teria perdido um ano e não teria compensado. Havia falta de coordenação entre os cursos a nível nacional.

    No final do curso, antes do internato, sabia que queria seguir Psiquiatria ou, por outro lado, não tinha essa ideia bem consolidada?

    Fui descobrindo. Acho que, ao contrário de muitas pessoas que vêm para Psiquiatria, sempre me diverti a operar, a suturar, não tinha problema nenhum com essa parte. Até ao terceiro ano, achei que queria ser ortopedista. Depois, gradualmente, penso que comecei a sentir falta das ciências humanas e procurei na literatura, na música e outras áreas coisas que a Medicina não me dava. Tendencialmente, nas faculdades de Medicina, e isso é algo que tem de ser combatido pelos professores, os alunos ficam muito focados na carreira médica e em ter boas notas e esquecem-se das outras vertentes. Penso que essa busca foi o que me empurrou para a Psiquiatria.

    A propósito disso, em abril, foi noticiado que o curso de Medicina da Universidade do Porto passaria a incluir uma cadeira de poesia, sendo que a instituição disse que o objetivo primordial passa por desenvolver o lado humanistas dos futuros médicos.

    Essa é uma preocupação porque pode levar a que se formem profissionais com menor capacidade de empatizar com os doentes e de interação social. Até foi uma das sugestões que fiz ao Professor António Barbosa quando ele me convidou para integrar os quadros da faculdade. Foi engraçado, porque sugeri isso e a primeira coisa que ele disse foi “Já consegui montar algumas dessas unidades curriculares”, ou seja, já tinha tido a mesma preocupação. Tem de se tentar estimular ainda mais os alunos a irem para essas áreas – com menos carga horária ou notas mais altas, tem de haver uma maneira de captá-los – porque não podem ter somente uma formação técnica. É uma perda, embora possa não parecer a algumas pessoas. Por isto é que pensei que Psiquiatria poderia ser a minha especialidade e, curiosamente, em Madrid, no estágio de Psiquiatria, pensei logo “Se calhar, podia ser psiquiatra forense”. O hospital onde estive, o Gregorio Marañón, tinha uma enfermaria forense. Não temos esse modelo em Portugal, nos hospitais gerais, mas um dos andares tinha guardas e portas como um estabelecimento prisional e era uma espécie de prisão num quarto andar. É uma memória marcante da minha passagem por lá.

    Lidou muito com estes doentes?

    São inimputáveis e cumprem aquilo que a que chamamos medida de segurança. Isto é, cometeram um ilícito típico – um crime – mas não têm culpa e esta é atribuída à doença mental grave que têm. Fui entrevistá-los uma vez ou duas com um professor e acho que foi o primeiro momento em que pensei “Eu podia fazer isto”.

    O que o levou a estar no Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira entre janeiro e dezembro de 2014?

    Na verdade, isto aconteceu por um engano no preenchimento da ficha de candidatura… Mas foi um bom engano! Correu bem, adorei estar lá, aprendi muito sobre uma região que não conhecia de todo e que tem um funcionamento completamente diferente em várias áreas e foi uma experiência extremamente enriquecedora.

    Nota que a saúde mental é ainda mais subvalorizada nas regiões autónomas?

    Na Madeira, tanto quanto vou ouvindo, a situação é muito complexa e é difícil ter médicos psiquiatras no serviço público, por exemplo. Quanto aos Açores, estou a trabalhar como consultor da Secretaria Regional da Saúde para o Programa Regional de Saúde Mental e, se tudo correr bem, serão implementadas medidas em breve que visam a prevenção e melhoria dos serviços prestados aos doentes. Há uma vontade de investir e isso é muito bom. Portanto, tenho a expectativa de que se consiga aproveitar este momento pós-pandemia, em que toda a gente vivenciou sintomas psicológicos ao mesmo tempo, e que a oportunidade seja agarrada tanto lá como na Madeira. Não só para a prevenção, mas também para trabalhar o estigma, a literacia em saúde e a reestruturação dos serviços. Nas ilhas há um défice na saúde mental, em parte porque existe uma dificuldade muito grande em captar e manter os psiquiatras. Alguém tem de pensar em medidas que alterem este panorama.

    O que sentiu quando começou a trabalhar no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, em 2015?

    Gostei bastante. Quando me telefonam a perguntar em que hospital devem fazer o internato, recomendo-o sempre porque tem vários tipos de área da Psiquiatria representadas e dá-nos uma perceção muito boa daquilo que são os doentes mais ligeiros, intermédios, mais graves, crónicos, inimputáveis – que estão na enfermaria forense -, ou seja, há um grande leque porque é o maior hospital psiquiátrico do país.

    Há uma oficina de carpintaria, outra de pintura…

    Certo. E há um projeto, Manicómio, que começou lá e que era gerido pelo Sandro Resende e pelo José Azevedo no Pavilhão 28. Adorava sair do trabalho e passar lá para ir a uma exposição. Hoje em dia, têm um espaço em Marvila e colaboram com empresas e a Câmara Municipal de Lisboa.

    E também foi lá que surgiu a Rádio Aurora – A Outra Voz.

    Essa rádio está ligada e é feita também ao/pelo serviço dos doentes crónicos.

    Neste momento, trabalha no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures. Tem sentido que os portugueses recorrem mais à Psiquiatria desde o início da pandemia? 

    É difícil responder a isso porque temos a nossa lista sempre cheia. Noto uma preocupação maior da parte das pessoas por haver um momento em que experienciaram sintomas psicológicos ao mesmo tempo e tiveram necessidade de se abrir umas com as outras. Sinto que, aos poucos, com informação a ser levada às pessoas, se vai quebrando o estigma. Isso já é uma ajuda.

    Como é que surgiu a oportunidade de escrever para a Comunidade Cultura e Arte?

    Houve uma aplicação, durante o segundo confinamento, a Clubhouse, que funcionava por salas. Houve um dia qualquer em que alguém disse algo como “Está aqui um psiquiatra, vamos pô-lo a falar”, mas era uma sala que tinha muita gente. O convite da Comunidade Cultura e Arte surgiu porque assistiam às conversas e perguntaram se gostaria de escrever para eles.

    Na primeira crónica que escreveu para o site, em março deste ano, intitulada de “Saúde mental. Primeira crónica, primeiro passo”, explicou que “dentro de todo o impacto negativo que a COVID-19 nos trouxe, o facto de ter afetado tantos de forma tão transversal em termos de sintomas psicológicos, veio permitir que as pessoas discutissem esses sintomas entre elas sem o medo da incompreensão”. No entanto, ainda existe um estigma considerável em relação a este tema, tanto que, na sua segunda crónica, descreveu-a como “a barreira invisível”, sendo a maior que a Saúde Mental enfrenta.

    Esta área tem um estigma histórico associado. Há muitos anos, a maior parte das doenças não psiquiátricas eram minimamente objetiváveis. Por exemplo, um braço partido é fácil de compreender desde cedo. E há doenças menos óbvias como infeções respiratórias que as pessoas foram associando a determinados comportamentos. Mas a doença mental, que provocava alterações graves do comportamento, parecia não ter lógica, digamos assim. E isso fez com que os doentes fossem, durante muitos anos, ostracizados e com que se criassem todos os preconceitos com os quais ainda lidamos. Como “os doentes são perigosos” ou “os doentes são irrecuperáveis”. Posteriormente, passámos por uma altura em que a Psiquiatria trancou os doentes em hospícios onde eram brutalmente medicados e sujeitos a tratamentos desumanos. Muitas das vezes, pela grande quantidade de fármacos que faziam, andavam na rua a arrastar os pés, a babarem-se… E essas imagens foram perpetuadas pelos filmes do cinema de Hollywood que as replicam. Ainda há muitas pessoas que têm medo de dizer que sofrem de uma doença psiquiátrica, mas se forem atempadamente tratadas, tudo é diferente. Se não tiverem tratamento, a sua capacidade cognitiva fica comprometida, agrava-se a possibilidade de recuperação e também a de futuro. Ainda que haja doenças nas quais, pelo tipo de doença e sintomas característicos as pessoas tenham tendência ao isolamento social, a ser piores alunas, a não ter  tanta facilidade em tirar cursos superiores (mesmo pela idade média de aparecimento de algumas patologias), hoje em dia, os doentes são funcionais e têm uma vida normalíssima caso as doenças sejam precocemente identificadas e se inicie de forma célere o devido tratamento.

    Também referiu que o Programa Nacional para a Saúde Mental é “cronicamente é adiado na sua execução e preterido no que diz respeito à alocação de orçamento”. Porquê?

    A primeira tentativa de instaurar este plano aconteceu em 2007. Foi há muito tempo. É preciso orçamento e as coisas não se fazem sem verbas atribuídas. Um exemplo disso é algo que o programa prevê – que os hospitais psiquiátricos sejam convertidos em serviços regionais de Psiquiatria. Deveria haver mais serviços forenses – não são suficientes porque temos, inclusivamente, doentes inimputáveis que aguardam o cumprimento das medidas de segurança em estabelecimentos prisionais e isso não devia acontecer -, estruturas de liberdade para prova e serviços de doentes difíceis.

    “A psiquiatria é a única área na qual — sempre por ordem judicial, ou seja, por decisão de juízes — uma pessoa pode ser indefinidamente privada de Liberdade em Portugal. Isto pode acontecer não através de um, mas sim de dois mecanismos: internamento compulsivo; aplicação de medida de segurança para um crime grave”. Isto acontece frequentemente em território nacional?

    Hoje em dia, não temos facilmente acesso aos números, mas é frequente. Os internamentos compulsivos, pela minha impressão clínica, devem rondar 20% dos internamentos em Psiquiatria. É complexo dizer aquilo que motiva isto, mas não é porque os psiquiatras gostem de privar as pessoas de liberdade e o façam de ânimo leve. A privação da liberdade é uma responsabilidade enorme e os psiquiatras têm consciência disso e, portanto, têm muitos cuidados quando o fazem. É um mecanismo que existe para proteger os doentes. Até porque quem decide é sempre um juiz, o psiquiatra só aciona o processo. Como há poucas camas nos serviços, sofremos muita pressão para internar apenas os doentes mais graves. Entre estes, estão aqueles que preenchem os requisitos para serem internados compulsivamente. Poderá ser um dos motivos que faz com que representem uma percentagem tão grande do total de internamentos.

    Alguma vez deixou de sugerir que alguém fosse internado devido à escassez de recursos?

    Na prática clínica, temos de fazer uma gestão e é muito difícil porque se prende com aquilo que são os recursos do hospital. É óbvio que já tive de encontrar soluções para pessoas que quereria internar e não podia, mas essas soluções são sempre equilibradas. No caso de não haver condições de internamento e surgir um doente muito grave, conseguimos articular entre hospitais e encontrar algum que tenha capacidade para o receber. Ninguém que precise de um internamento urgente fica por internar.

    Como assim?

    Refiro-me a pessoas que observamos no serviço de urgência e enviamos para casa com vigilância de familiares, medicação e com referenciação para consultas de psiquiatria. Depois o médico que ficar atribuído dá seguimento ao plano terapêutico.

    E estão disponíveis para assumir essa responsabilidade?

    Como em todas as áreas, tanto há familiares atentos como aqueles que não se importam. Isso é igual em todo o lado.

    O que deve mudar urgentemente?

    É preciso criar os serviços de Psiquiatria de agudos e uma rede de cuidados continuados integrados que seja eficaz. O Júlio de Matos tem quatro serviços de agudos. Para esses, teoricamente, teriam de abrir quatro serviços de Psiquiatria em hospitais gerais nas áreas de residência que o hospital serve. Isto poderia acontecer com abertura de serviços em Sintra, Mafra ou Torres Vedras, para que os doentes estejam perto da comunidade deles e não deslocados, de forma a, por exemplo, receberem visitas. A construção do Hospital de Todos-os-Santos serviria os doentes de Lisboa. Só que isto custa dinheiro. Penso que em 2016 voltou a dar-se uma volta ao programa desde que o professor Miguel Xavier está envolvido. Agora vêm 84 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência e vamos ver como serão geridos e distribuídos, sendo que irão permitir, entre outras coisas, a criação de importantes equipas comunitárias multidisciplinares. Os cuidados irão até aos doentes ao invés de serem os doentes a vir até aos cuidados. Também já se conseguiu algo muito importante que foi a dispensa gratuita dos antipsicóticos – porque os doentes que deles precisam são os mais graves da Psiquiatria e, para terem acesso à medicação mais recente, tinham de pagar cerca de 30 euros por mês. Para muitos doentes que vivem com rendimentos baixos, este valor era incomportável, então acabavam por ser medicados com fármacos antigos, daqueles que provocam os efeitos secundários de que falei há pouco. A medicação deve ser uma decisão médica e não uma imposição financeira. Finalmente o Estado decidiu assumir essa responsabilidade e, a partir de agora, todos terão a mesma possibilidade de acesso. Temos também questões como a necessidade de criação de acesso ao espaço exterior por parte dos doentes internados ou da implementação de modelos de prevenção em doença mental que devem ser prioridades.

    Como é que os medicamentos mais antigos continuam a ser comercializados?
    Apesar de tudo, são muito úteis. Há situações clínicas em que continuamos a precisar deles e têm perfis de segurança muito bons, têm muitos anos de aplicação e mais efeito sedativo. O problema não é o facto de existirem, mas sim de não haver outra opção. Dentro daquilo que é o nosso exercício clínico, temos de ter um leque grande de alternativas.

    Prescreve-os a alguém?

    Há casos em que os doentes têm alterações de comportamento muito graves e precisam de ficar mais sedados. Também caso tenha um doente absolutamente estável, sem efeitos secundários, que faz estes fármacos há vários anos, não há necessidade de mudar a medicação. Só que essa é a exceção à regra e, por isso, é preferível que façam outro tipo de antipsicóticos – aqueles a que em Psiquiatria chamamos de “atípicos”.

    Qual é o medicamento que prescreve mais?

    Sem dúvida que é a Sertralina, que apesar de ter o rótulo de antidepressivo, é muito usado para combater não só a depressão, mas também a ansiedade ou a perturbação obsessivo-compulsiva. É um SSRI, ou seja, um inibidor seletivo de recaptação de serotonina, que já agora, é como devemos olhar os medicamentos nesta área – pelo mecanismo de acção e não pelo rótulo de antidepressivo/antipsicótico/ansiolítico.

    Pensei que fosse a Fluoxetina.

    Tem mais efeitos secundários do que a Sertralina, por isso não é tão bem tolerada. Obviamente que a prescrevo, mas um dos efeitos secundários que provoca é a falta de apetite, algo que não convém que aconteça aos doentes depressivos que têm anorexia, por exemplo. Parte do que fazemos é jogar com os efeitos secundários dos medicamentos a favor dos doentes, porque todos são diferentes e há efeitos secundários, como a tal falta de apetite, que podem não ser vantajosos num caso, mas úteis noutros.

    Que doenças se encontram menos?

    Talvez a perturbação esquizoafetiva, da qual nem sei bem qual é a prevalência na população portuguesa. A de esquizofrenia é de 0,57%, segundo um estudo do Miguel Gouveia, por exemplo. Apesar de parecer baixa, como os Centros de Saúde não ficam com estes doentes, acabam por estar presentes numa percentagem maior nos serviços de Psiquiatria.

    Têm semelhanças?
    A perturbação esquizoafetiva é como se fosse um ponto intermédio, digamos assim, entre a esquizofrenia e a doença bipolar. Os doentes têm períodos de sintomas psicóticos com alterações de humor e, depois, períodos só com sintomas psicóticos. Como disse, penso que são os doentes que observo em menor número.

    Tem notado um aumento crescente do consumo de antidepressivos desde o início da pandemia? Por exemplo, nos primeiros três meses de 2020 foram vendidas mais 400 mil embalagens destes do que no mesmo período em 2019.

    No estudo que fiz em relação ao período do primeiro confinamento, percebi que houve um aumento de sintomas psicológicos. É normal que isso tenha levado a que fossem prescritos mais fármacos, especialmente ansiolíticos. Estamos a falar de sintomas de curta duração, chamemos-lhe assim, que foram vividos no imediato, e esses medicamentos são muito úteis nesses casos.

    Que propostas tem apresentado no Health Parliament Portugal?

    O Parlamento da Saúde é um projeto de quatro entidades – da Janssen, da Microsoft, da Universidade Nova de Lisboa e do Expresso – e a ideia foi criar uma coisa que replicasse o funcionamento de um parlamento só para a área da saúde e com pessoas abaixo dos 40 anos. O objetivo é ter pessoas de todas as áreas, que representem a sociedade civil, e eu acabei por me juntar ao projeto e ser coordenador da comissão de Saúde Mental. Na minha comissão há um realizador de cinema, pessoas ligadas à área social… Queremos pensar a saúde e construir recomendações que, eventualmente, se tornem medidas propostas pelos partidos políticos e sejam levadas à Assembleia da República, para que sejam aprovadas. Tivemos a fase que decorreu até agora, da criação das medidas, e depois teremos uma de implementação.

    E pode revelar algumas?

    Sim, claro, são públicas. Ao longo dos últimos meses já fomos reunindo com alguns partidos e, até ao final, contamos reunir com todos, sem exceção. A aprovação a dispensa dos antipsicóticos, de que já falei, estava prevista e ainda não está implementada da forma que nós sugerimos (achamos que ainda pode ser melhorada); estamos a sugerir a criação de indicação de avaliação de desempenho para os Centros de Saúde, para que os doentes menos graves possam ser acompanhados junto da sua comunidade e não nos hospitais; estamos a propor alguns mecanismos de prevenção de doença, nomeadamente a criação da um Professor Coordenador de Saúde nas escolas; o financiamento de meios audiovisuais para levar informação de forma indireta às pessoas e combater o estigma… Ainda há mais e as pessoas conseguem encontrá-las com facilidade pesquisando na Internet.

    A título de exemplo, mencionou que “o Estado não paga a medicação aos doentes que se encontrem em regime de tratamento compulsivo em ambulatório” e que “dever-se-á levantar a questão de uma vez que esse tratamento é coercivo, poder não ser ético que se obrigue o doente a pagar por ele”. Que motivos levam a que isto aconteça?

    O tratamento compulsivo em ambulatório é uma forma específica de tratamento compulsivo, no qual o doente não está no internamento, mas sim na comunidade (em sua casa ou numa instituição não hospitalar). Quando entendemos que o doente não consegue gerir a doença, e que há risco para a sua saúde se não ficar medicado, podemos solicitar que um juiz ordene, no fundo, que este vá a consultas e tenha cumprir o tratamento. Para a grande maioria dos doentes, com a dispensa dos antipsicóticos injetáveis esta questão deixou de ser problemática, mas mantenho a minha ideia de que todos os tratamentos coervicos deveriam ser financiados pelos hospitais, visto que isto é uma espécie de um prolongamento dos internamentos na comunidade.

    Na sua terceira crónica, referindo-se ao estudo que mencionou há pouco, esclareceu que investigou o impacto que o distanciamento físico poderia ter na Saúde Mental das pessoas, sendo que analisou, juntamente com os seus colegas, sintomas de depressão, ansiedade e insónia em adultos, durante o primeiro estado de emergência, através do preenchimento online de escalas validadas para o efeito. Os resultados estiveram em linha com o que estava a ser concluído a nível nacional e internacional: as mulheres, os adultos jovens — em particular os estudantes — os desempregados, as pessoas que já sofriam de perturbações psiquiátricas e as que já se encontravam medicadas com psicofármacos, apresentavam resultados piores nas escalas. Esta continua a ser a realidade portuguesa?

    Houve pelo menos um estudo, do Pedro Morgado da Universidade do Minho, que acompanhou as pessoas ao longo do tempo. O que se conclui com esse estudo está também em linha com o que vem sendo encontrado internacionalmente – mesmo durante os confinamentos, as pessoas foram recuperando. Isto era esperado, porque o que acontece é que, quando as pessoas vivem um período que gera stress, têm sintomas psicológicos.Com o tempo, a grande capacidade de adaptação do ser humano leva a que tenham menos sintomas e não desenvolvam doenças psiquiátricas. É claro que há uma pequena percentagem de pessoas que progride para as perturbações depois do período de stress, mas a grande maioria não as desenvolve e adapta-se à circunstância.

    Acredita que o Executivo tem disponibilizado ferramentas suficientes para que este panorama melhore ou, por outro lado, não tem sido feito o devido esforço?

    Desde o início da pandemia, parece que se lembraram de que o assunto existe. Como já discutimos, é uma área cronicamente subfinanciada, que nunca recebe atenção, em que trabalhamos muito pouco na prevenção – com promoção de uma vida ativa e saudável e intervenções nas escolas – poucos programas de literacia e, portanto, isso leva a perdas ao nível da saúde. Há muitas coisas que estão em falta, que não são tão complicadas de instaurar – são mais questões de formação e capacitação de profissionais -, ainda que haja algumas que pressuponham um orçamento maior. Espero que o Health Parliament consiga ajudar a impulsionar a mudança.

    “A esquizofrenia é, provavelmente, a doença mais limitante e mais estigmatizante da Psiquiatria”, redigiu em maio. 

    Sim. Porque é a doença mais comumente associada ao que chamamos de sintomas psicóticos, ou positivos – as pessoas vivem com distorções da realidade, como ouvir vozes que não estão a ser emitidas ou tendo a certeza de estar a ser perseguidas – e esses sintomas motivam comportamentos que para um olho não clínico podem ser considerados “estranhos” ou conflituosos. Para além disso, existem ainda outros sintomas, a que chamamos de sintomas negativos, que fazem com que estas pessoas tenham maiores dificuldades na interação com os outros, com o sistema de ensino e com a motivação para atividades no geral, fazendo com que tendam a isolar-se. Pode dizer-se que são postos de parte tanto pela sociedade como pela própria doença, por isso é um dever nosso, o de compreender estes doentes e procurar integrá-los.

    E cumprem a terapêutica que lhes prescreve?

    Pela natureza da própria doença, quando as pessoas têm uma esquizofrenia e estão na fase aguda da mesma, não reconhecem que estão doentes. Isto leva a que, muitas das vezes, seja difícil que as convençamos a fazer o tratamento. Todos os psiquiatras têm doentes que fazem medicação antipsicótica, sentem-se bem, pensam que já não precisam da mesma e recaem. É outra das dificuldades – não apenas o tratamento da fase aguda, como também o de manutenção.. É parte do estigma que ainda existe: as pessoas querem sempre deixar a medicação da Psiquiatria, acham que já não precisam. Porque se calhar não acreditam no diagnóstico ou por outros motivos. E, se pensarmos nas outras doenças, ninguém quer abandonar o medicamento da tensão arterial ou a insulina para controlar a diabetes. Não faz sentido. As pessoas têm doenças crónicas que precisam de tratamento e na Psiquiatria isto é igual.

    Descreveu o burnout como “um fenómeno ocupacional”, pois preenche três critérios: o sentimento de diminuição de energia ou exaustão; distanciamento mental e sentimentos negativos em relação ao trabalho; diminuição da eficiência profissional. Este tem vindo a aumentar devido ao teletrabalho?

    O fenómeno é muito recente e torna-se difícil de avaliar. Aquilo que noto, com base na minha prática clínica e em estudos publicados, é que o burnout dos profissionais de saúde aumentou porque sofreram uma pressão enorme. Quanto ao resto das pessoas, só consigo dizer que estão cansadas do teletrabalho. É engraçado que, quando fizemos o nosso estudo, as pessoas que ficavam em casa reportavam resultados melhores porque, no primeiro confinamento, provavelmente sentiam-se protegidas e não ir ao local de trabalho fazia com que não levassem a doença para casa. Mas, ao longo do tempo, começou a ser saturante. A maior parte dos meus doentes já não aguentava estar em casa e eu compreendo. Como sou médico, nunca estive em casa, mas percebo, porque é muito difícil definir os limites; os períodos de descanso e de trabalho, estar o dia todo – apesar de ser com a família – com as mesmas pessoas e as condições socioeconómicas que têm um peso importante, porque nem todos têm um espaço onde se sintam bem a executar as suas tarefas e consigam fazer uma separação, imaginemos, entre escritório e sala de estar. A mudança de espaço é saudável para conseguirmos interiorizar onde se trabalha, onde está o lazer, os períodos de descanso… Tive doentes que estavam com tanto medo da covid-19 que nem sequer saíam de casa para correr, por exemplo. Isto certamente levou ao aumento do sedentarismo, que é bastante prejudicial para a Saúde Mental das pessoas.

    Não houve uma quebra entre os dois ambientes e tempos. Agora, fala-se muito no denominado “direito a desligar”. 

    É uma das grandes questões. Temos de rever a nossa política de trabalho, pois aquilo que tem impacto nos nossos trabalhadores tem impacto no trabalho. A cultura de “eu trabalho mais horas, trabalho melhor” está instaurada, mas tem de mudar.

    Clarificou que “trabalhar acima das 60 horas semanais aumenta de forma marcada o risco de se desenvolver esta condição”. Atende muitas pessoas cuja realidade é esta?

    A minha resposta é muito inespecífica e baseada naquilo que é a minha perceção. Não sinto que as pessoas estejam dispostas a continuar assim, mas sim o contrário: percebem, cada vez mais, que não faz sentido este tipo de trabalho.

    “Desde crianças a usar o termo para classificar outras na escola, adultos a utilizá-la como insulto, ou mesmo comentadores e políticos a incluir o termo ‘bipolar’ no seu discurso em tempo de antena televisivo, já todos nos cruzámos com a utilização deste diagnóstico como forma de diminuição do outro”. Porque é que a bipolaridade é, à semelhança da esquizofrenia, tão estigmatizada?

    São patologias diretamente relacionadas com alterações do comportamento. Quando um psiquiatra faz uma avaliação, fá-la com base no discurso, na postura, no humor, na forma e conteúdo do pensamento e na perceção do doente. E, depois, fazemos um resumo psicopatológico. Estas doenças tornaram-se uma forma de insulto para justificar comportamentos que são considerados desajustados ou inapropriados. Já tivemos, em todos os media, pessoas a usarem outros exemplos, como políticos a dizerem que “o Governo era esquizofrénico”. A título de exemplo, quando as pessoas são indecisas ou mudam de opinião rapidamente, há quem diga que são bipolares, mas não tem relação nenhuma com a alternância entre períodos de energia aumentada e euforia com períodos depressivos que duram várias semanas, como vemos na doença.

    Mas isto tem a ver com a falta de literacia em saúde que pretende que seja modificada. Existem outros exemplos muito comuns como “Estou tão triste, vou cortar os pulsos”. Faz-se pouco de comportamentos autolesivos com a maior das naturalidades.

    Precisamente.

    A bipolaridade ainda é mal diagnosticada, por exemplo, confundindo-se com transtornos como o da personalidade borderline?

    Na Psiquiatria, como não temos exames complementares de diagnóstico que nos digam de que é que a pessoa sofre, não podemos dizer “esta doença está presente, porque vem neste papel, ou está presente esta alteração”. A perturbação de personalidade borderline, de facto, é um diagnóstico difícil porque as vivências e os sintomas apresentados podem, de alguma forma, mimetizar sintomas relacionados com a doença bipolar. Isto prende-se com a instabilidade emocional que há assim como os vínculos muito rápidos e intensos que, muitas das vezes, levam a frustração e desilusão e causam uma agitação e comportamentos na pessoa que fazem com que se torne complicado fazer a distinção. Ainda assim, gosto de acreditar que os diagnósticos são bem feitos, sendo inevitável que haja doentes que, passando por vários médicos, tenham diagnóticos diferentes. Qualquer área que seja dependente do observador, terá sempre um viés de observação da própria pessoa.  Ainda que a tal falta de exames complementares de diagnóstico seja uma realidade, nunca será demais referir que as perturbações psiquiátricas não deixam de ser físicas – toda a vivência é tida através de neurotransmissão, que apesar de ser feita em circuitos microscópicos e com inúmeros neurotransmissores diferentes, está a ocorrer no cérebro em todos os momentos. Hoje sabemos que muitas doenças estão ligadas a fatores genéticos que predispõem o seu aparecimento, a comportamentos, consumos, violência ou outros fatores geradores de stress que possam precipitar esse aparecimento, mas que são alterações físicas presentes nos circuitos cerebrais a motivar a disfunção. A associação entre várias perturbações psiquiátricas e a inflamação – já extensamente descrita – ou alterações do metabolismo, são bons exemplos da implicação física destas doenças.

    A insónia é a maior perturbação do sono? Quais são os principais fatores que a geram?

    Não tem de ter uma causa objetivável subjacente. Antigamente, classificava-se a insónia como primária ou secundária a outra patologia. Hoje em dia, já não se usa essa terminologia, mas sim a insónia aguda ou crónica, que é aquela que dura mais de três meses. O sono está relacionado com todas as áreas da vivência e o que faz sentido é encarar as suas perturbações como parte de todo o processo clínico. É claro que é um fator facilitador para que as pessoas desenvolvam uma perturbação de ansiedade ou mesmo uma depressão, mas uma depressão também é algo que facilita o aparecimento da insónia. Há uma relação muito próxima entre o stress gerado por um sono patológico e outras perturbações psiquiátricas e vice-versa.

    Os portugueses têm uma boa rotina de sono ou não é esse o caso?

    Há fatores de risco para se ter insónias: ser-se mulher, idoso, ter comportamentos como o consumo de café a partir do período da tarde, a prática de exercício físico antes de ir dormir, levar os gadgets para a cama… É uma área muito completa que tem fatores predisponentes, precipitantes e perpetuadores.

    E é tudo assim tão linear desde o surgimento do novo coronavírus?

    Quando fizemos o estudo, em plena pandemia, estes dados não tiveram relevância estatística porque a nossa amostra teria de ser ligeiramente maior, mas apurámos que as pessoas que ficavam em casa – quer não estivessem a trabalhar, quer estivessem em teletrabalho -, reportavam níveis de insónia superiores. Provavelmente, o confinamento aumentou a percentagem de pessoas com este problema porque, ao estarem sempre em casa, dormiam sestas, estavam mais ansiosos… O padrão de sono piorou, mas para dizermos isto com certeza absoluta a um nível cientificamente rigoroso, teríamos de ter feito uma avaliação pré-pandemia, outra durante e outra pós-pandemia. Ainda assim, temos alguma segurança quando referimos que o padrão de sono dos portugueses piorou durante esse confinamento.

    Em 2018, lançou a obra Urgências Psiquiátricas, juntamente com André Ponte, que contém quadros muito intuitivos de diagnóstico para os profissionais de saúde.

    Esse livro surgiu porque, quando comecei a fazer urgências sozinho, não havia nenhum guia português adaptado à nossa realidade com opções farmacológicas e doses concretas. Tinha muita dificuldade em chegar aos livros, ler as descrições das doenças e entender a terapêutica. Qual seria a dose inicial de um medicamento na urgência? Fui estudar e comecei a preparar uma espécie de orientações que iam ficar para mim, mas, em conversa com o André Ponte, médico psiquiatra e meu amigo que coordenou o livro comigo, começámos a questionar “E se isto fosse uma coisa maior?”. E foi algo inesperado porque eu disse “E se juntássemos mais pessoas?”, mas nós éramos internos e não especialistas. Não esperávamos que a editora Lidel tivesse interesse, mas apostou em nós e penso que o resultado do livro é bastante satisfatório. Eu próprio recorro ao mesmo quando tenho algumas dúvidas e fico satisfeito por ver que os internos também. Os lucros desta obra reverteram para o pagamento da medicação injetável que não era gratuita. Se calhar, agora, tenho de procurar outra causa para atribuir os lucros, até porque será lançada uma segunda edição.

    O que podemos encontrá-lo a fazer fora do consultório?

    Com amigos – tenho vários grupos com os quais faço questão de manter contacto regular e, portanto, almoço e janto muitas vezes fora -, a jogar rugby – uma paixão minha desde miúdo -, a viajar e a visitar museus. O livro terá sido, quase na totalidade, revisto no Jardim da Gulbenkian. É dos sítios onde passo mais tempo em Lisboa. Outro sítio que escolho frequentar com regularidade é o Lux.

    Está a dar aulas neste momento na Clínica Universitária de Psiquiatria e Psicologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa?

    Tive um constrangimento horário e estou a tentar procurar uma solução para conciliar tudo. Sou assistente livre da cadeira de Psiquiatria.

    Gosta de lecionar?

    Foi uma coisa inesperada porque não me via a ser professor, especialmente, quando era estudante. Isto aconteceu por causa do livro: o professor António Barbosa encontrou-o na Feira do Livro, comprou-o, gostou dele e fez-me o convite. Fiquei na dúvida, aceitei e acabei por gostar bastante.

    O contacto com futuros médicos é estimulante?

    E a grande questão é: enquanto professor, tenho oportunidade de ser o professor que gostava de ter tido e tratar os alunos como gostaria de ter sido tratado. É uma forma de estarmos atualizados porque temos de estudar. Já aconteceu, e não será com certeza a última vez, ter alunos que me colocam uma dúvida e vou estudar para lhes responder. Também se aprende e os alunos são muito mais interessados do que era na idade deles. Têm conhecimentos muito mais aprofundados das matérias, são mais proativos – candidatam-se a estágios, produzem podcasts, querem conhecer as especialidades todas – e isto será benéfico para eles e para os doentes.

    Quais são os seus planos para o futuro?

    Ando muito ao sabor daquilo que me vai apetecendo fazer. Não consigo dizer aquilo que farei, mas tenho alguns projetos que estão a decorrer: um deles é um livro, para a população em geral, sobre a depressão. Gostaria que fosse lançado até ao final do ano. Tenho outra obra parecida em curso, mas para ser publicada posteriormente.Tenho uma oportunidade espectacular para produzir impacto num Serviço de Saúde nos Açores e a parte de investigação crescente no Beatriz Ângelo, porque foram e estão a ser criadas condições para tal, e isso motiva-me. Estou a pensar em novos estudos e a integrar alguns que já decorriam no hospital. No fundo, o meu grande objetivo é produzir impacto na Psiquiatria e na área da Saúde Mental e fazer com que os doentes tenham cuidados melhores do que tinham antes da minha passagem por aqui.

    Fonte: Jornal Sol